Anatomia do Caos (por Peter P. Douglas)

Anatomia do Caos (2026), longa-metragem nacional documental, distribuído pela Descoloniza Filmes, estreia, oficialmente, nos cinemas brasileiros, a partir de 02 de julho de 2026, com classificação indicativa 12 anos e 88 minutos de duração.

O maior desafio de “Anatomia do Caos” é simples de entender e quase impossível de executar: como produzir algo novo a partir de uma realidade que durou dois anos e foi marcada por saturação absoluta de imagens, vídeos, lives, memes, depoimentos, escândalos, CPI, manchetes e mais manchetes? Nesse sentido, o documentário de Dandara Ferreira tropeça.

Ao acompanhar in loco a CPI da Covid no Senado em 2021 e misturar esse material com cenas de noticiários e redes sociais que todo mundo já viu, reviu e teve pesadelos com, a diretora acaba entregando um resumo — competente, mas ainda assim um resumo — da catastrófica gestão da pandemia pelo governo Bolsonaro. A sensação é que “Anatomia do Caos” existe como um exercício de compilação dos piores momentos recentes do país, tentando intervir na política em pleno ano eleitoral.

Há um universo inteiro de abordagens possíveis — e necessárias — para revisitar o tema sem provocar déjà vu. O problema aqui é o pressuposto de que o público precisa ser reintroduzido didaticamente ao assunto, como se ele não estivesse fresco na memória e, para muitos, ainda no sangue.

Em vez de terapêutica ou reflexiva, a repetição de certas imagens acaba sendo perversa. Não abre espaço para reflexão, só reacende indignação. Em fragmentos assim, o documentário dialoga mais com a emoção do que com a razão, o que dificulta o distanciamento mínimo necessário para um debate mais profundo. “Anatomia do Caos” não é irrelevante, nem malfeito. Mas é um filme que tenta organizar o caos… e acaba apenas reorganizando o que já estava diante de nós.

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