
Tentar filmar a vida de Sarah Bernhardt é como tentar colocar o oceano dentro de um copo — inevitavelmente vai transbordar
A Divina Sarah Bernhardt (Sarah Bernhardt, La Divine AKA The Divine Sarah Bernhardt, 2024), longa-metragem francês de drama, distribuído pela Imovision, estreia, oficialmente, nos cinemas brasileiros, a partir de 16 de julho de 2026, com classificação indicativa 16 anos e 98 minutos de duração.
Com uma figura histórica e artística tão gigantesca quanto Sarah Bernhardt — uma atriz tão famosa que seu funeral atraiu 600 mil pessoas em Paris, em 1923 — o diretor Guillaume Nicloux assumiu um desafio que beira o suicídio artístico ao realizar “A Divina Sarah Bernhardt”. O roteiro audacioso de Nathalie Leuthreau não facilita: ele exige navegar por três períodos distintos (1915, 1896 e 1886) enquanto tenta retratar uma mulher incomum, feminista, extravagante, generosa, perspicaz, cheia de bravata e marcada por dores profundas. É um filme que abre uma janela íntima para a linha tênue entre a pessoa e a celebridade.
Março de 1923: Sarah Bernhardt (Sandrine Kiberlain), outrora a atriz mais amada, adorada e rica do mundo, jaz em seu leito de morte. Fraca, delirante, cercada por enlutados, ela continua sendo “a Divina”. E sempre será.
Uma década antes, ela estava em outro leito, aguardando uma amputação. Uma lesão terrível sofrida no palco havia gangrenado sua perna. Enquanto amigos e sua amante ocasional, Louise (Amira Casar), choram ao seu redor, Sarah permanece espirituosa. Perder uma perna? “Que seja.” Receber ameaças de morte por ser judia? “Idiotas.” Sarah mantém a dignidade de quem sabe exatamente quem é.
Acompanhada por Sacha Guitry (Arthur Mazet), quase um filho para ela, Sarah relembra a dor que causou ao pai dele, Lucien Guitry (Laurent Lafitte), seu parceiro de longa data — no palco e na vida. Sarah teve marido, amantes e uma fila de corações partidos, mas nenhum amor se compara ao de Lucien. E nenhuma crueldade sua foi tão devastadora quanto a daquela noite que deveria ter sido de celebração.
Sarah Bernhardt (1844–1923) pode muito bem ter sido o protótipo da celebridade moderna: fabulosa, rica, idolatrada, envolta em escândalos e feroz defensora dos direitos humanos e do feminismo. Enquanto muitos judeus escondiam sua origem, ela a proclamava. Quebrou padrões ao interpretar Hamlet. Tornou-se a pessoa mais velha a ganhar uma estrela na Calçada da Fama. Oscar Wilde e Mark Twain a chamavam de “a Incomparável”. E, ainda assim, fora da França, pouca gente conhece seu nome. Conhecemos Dumas, Hugo, Rostand… mas Sarah, a mulher que eles admiravam, ficou à margem da memória popular.
Por isso, Leuthreau e Nicloux estavam tão entusiasmados em retratar sua vida — ou melhor, dar uma ideia dela. Porque “A Divina Sarah Bernhardt” não é uma cinebiografia tradicional. Mesmo uma versão resumida da vida de Sarah teria o dobro da duração do filme. Assim, o longa destaca dois momentos: o “Dia de Sarah Bernhardt” e a amputação de sua perna. O frágil fio narrativo é a relação turbulenta entre Sarah e Lucien.
Infelizmente, nunca vemos Sarah no palco. E isso dói. Bernhardt era tão monumental que suas performances eram avaliadas pelo número de desmaios na plateia. Mas Nicloux e Leuthreau, talvez constrangidos com a impossibilidade de recriar esse impacto, optam por não mostrar a maior atriz da época… atuando. Uma pena, porque isso teria dado outra dimensão à atuação de Kiberlain.
O foco no relacionamento com Lucien funciona graças à química entre Kiberlain e Lafitte, mas perde força por causa da estrutura em flashback. Sabemos desde cedo que eles se reencontram, então parte da tensão se dissolve. Mais interessante é o conflito entre Lucien e Sacha — mas isso é resolvido apressadamente em uma narração no epílogo.
Assim como a própria Sarah, “A Divina Sarah Bernhardt” tem arestas. Contudo, contribui com o retrato de uma paisagem vasta demais para caber inteira na tela. O filme transmite fragmentos da experiência de Sarah, oferecendo apenas uma essência da vida desse ícone.
















