Como Se Fosse Um Filme, por Lindsay (por Peter P. Douglas)

O documentário nacional de 55 minutos de duração, dirigido por Ramon de Jesus e produzido pela Kaleidoscópio Filmes, intitulado “Como Se Fosse Um Filme, por Lindsay” (2025) trata-se de um registro íntimo e biográfico em formato de entrevista e acompanhamento do cotidiano de Lind Loran (também referida em momentos do projeto como Lindsay), uma mulher transexual heterossexual de 47 anos, que atua como cabeleireira e atriz em São Paulo.

Lind abre as portas de sua residência e introduz sua identidade. Ela mostra seus animais de estimação, que foram todos frutos de doação: uma chinchila chamada Diego e um cachorro da raça pug, já idoso (com cerca de 14 para 15 anos).

Ela exibe os seus altares domésticos, explicando sua conexão religiosa com a organização budista japonesa BSGI (Soka Gakkai International)e, simultaneamente, seu respeito e culto à entidade Pomba Gira na umbanda/candomblé, a qual define como um espírito protetor sempre presente em sua vida.

Lind recorda que, desde a infância, tinha forte inclinação para o universo das artes, sonhando em trabalhar com cinema ou teatro a partir dos 14 anos. Ela também possuía talento para desenhar e criar roupas de bonecas a partir de retalhos.

Lind relata ter sido duramente podada por seus pais diante das atividades que praticava, consideradas “femininas” na época. Essa repressão gerou traumas e a fez se afastar temporariamente da arte por acreditar ser uma perda de tempo, sendo empurrada para empregos convencionais como atendente de livraria e operadora de telemarketing.

Sua carreira como cabeleireira — a qual exerce há mais de 25 anos — foi ensinada por um ex-namorado e professor da área, já falecido. Lind relembra que trabalhou como auxiliar por três anos em um salão renomado no bairro dos Jardins. No entanto, sua transição de gênero incomodava a gerência e gerava transfobia por parte de clientes (especialmente senhoras de elite) que se recusavam a ser atendidas ou tocadas por ela. Apesar disso, afirma que não se deixava abalar, encarando a recusa como um livramento de não absorver energias ruins.

Lind compartilha que inicialmente se assumiu como um homem gay, acreditando que isso seria o suficiente para viver com dignidade. Relembra histórias divertidas e caóticas de sua juventude, como sua primeira ida a uma balada gay, onde conheceu um namorado, mas acabou sendo furtada no Dark Room e teve problemas com a comanda.

No decorrer da narrativa, Lind assiste a trechos de um antigo trabalho acadêmico gravado em 2010, do qual participou ao lado de outras mulheres trans. Ela reflete sobre a realidade daquelas companheiras de filmagem após 16 anos; nota que a grande maioria delas sobreviveu por meio da prostituição (enquanto ela seguiu os caminhos do salão e do teatro), mas pontua que todas, à sua maneira, são sobreviventes da realidade marginalizada imposta a corpos trans.

Em um momento de descontração e vaidade, Lind mostra suas lentes de contato coloridas, comentando que os olhos claros lhe trazem um sentimento de empoderamento e ajudam a compor sua “personagem” para o mundo, embora não possa usá-las por muito tempo devido a problemas de fotofobia e pressão ocular.

Lind menciona que fez figuração no filme hollywoodiano “Anaconda” (1997), gravado na Amazônia, o que impulsionou seu desejo de ir para São Paulo. Lê passagens de um diário pessoal do ano 2000, detalhando angústias familiares cotidianas e desilusões amorosas da juventude. Ela exibe fichas e relata suas experiências exaustivas e por vezes humilhantes tentando entrar em programas de TV e realities como “Popstars”, “Ídolos” da Record (onde passou frio e fome em longas filas de espera), um reality de cabeleireiros da Eliana (Por um Fio) e o “MasterChef Brasil”.

Como ativista, mostra o projeto “Calendárias” de 2017, uma ONG focada na empregabilidade de pessoas trans, que contou com a participação de figuras hoje proeminentes, como a deputada Erica Hilton. Defende a necessidade de o mercado dar papéis de destaque a atrizes trans que fujam do estereótipo e que possam interpretar mulheres comuns, mães de família e vilãs. Elogiando o trabalho contemporâneo da atriz trans Gabriela Loran na televisão.

Destaca sua atuação na peça “Avental todo sujo de ovo” e celebra sua participação como a personagem “Banana” no filme “Lili e as Libélulas”, do diretor Renê Guerra, gravado antes da pandemia de COVID-19.

Um dos momentos mais interessantes do documentário ocorre quando Lind detalha que iniciou sua transição tardiamente, por volta dos 28 anos, após encerrar um relacionamento homoafetivo. Aos 30 anos, investiu cerca de R$ 10.000 em suas primeiras cirurgias plásticas (próteses de silicone e lipoescultura) na clínica Master Health. Estima que já gastou entre R$ 30.000 e R$ 40.000 em procedimentos estéticos e planeja investir mais de R$ 200.000 para realizar cirurgias futuras de feminização facial (frontoplastia), cirurgia da voz (glotoplastia) e a redesignação sexual.

Lind relembra o impacto de voltar à sua cidade natal, Manaus, já transicionada. Explica que sua mãe (já falecida) e seu pai nunca conseguiram aceitar plenamente sua identidade, tratando-a sempre no masculino e utilizando o seu “nome morto”. Apesar do distanciamento e da perda de amizades ao longo do caminho, afirma categoricamente que não tem depressão, não tem neuras e se sente uma mulher plenamente feliz, independente e realizada vivendo sozinha em São Paulo.

Perto do encerramento do documentário, Lind Loran apresenta um monólogo dramático dirigido pelo diretor Ramona, interpretando “Vanusa”, uma garota de programa trans que carrega o segredo de um crime. A obra termina com Lind saindo do personagem e celebrando a própria atuação de forma entusiasmada junto à equipe técnica.

No fim das contas, o grande trunfo de “Como Se Fosse um Filme” é não cometer o crime de transformar a protagonista num panfleto de duas pernas. Que chocante, não? O documentário teve a ousadia de tratar a pessoa como — pasmem — um ser humano completo. Em vez de reduzir Lindsay à sua identidade de gênero, como se ela fosse um verbete de dicionário, o filme insiste na inconveniência de mostrá-la como uma artista, cinéfila e alguém que, por incrível que pareça, tem sonhos e memórias. É quase subversivo: em vez de socar representatividade goela abaixo com um megafone, o filme apresenta a pessoa de forma natural. Uma estratégia brilhante, eu diria: tratar o próximo com respeito acaba sendo uma técnica de marketing infalível.

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