Perfect Blue, 1997 (por Peter P. Douglas)

Satoshi Kon, que nos deixou em 2010 por causa de um câncer pancreático, era um diretor de anime tão talentoso que parece até injusto que ele tenha tido tão pouco tempo para trabalhar. Mesmo assim, deixou um legado que dá para explorar por anos. Antes de virar animador, ele já tinha passado por mangá, roteiros e supervisão — ou seja, o homem já estava aquecendo antes de entrar em campo.

“Perfect Blue” (Pāfekuto Burū, 1997) foi sua estreia na direção, e que estreia! O filme foi aclamado nos EUA e no Japão, ganhou prêmios e deixou muita gente traumatizada de forma artística. Mas, apesar de eu querer elogiá-lo até perder a voz, aviso: não é para todos. Tem temas pesados e imagens que fazem você repensar sua relação com a sanidade.

A história vem de um romance de Yoshikazu Takeuchi, adaptado por Sadayuki Murai — a única vez que Kon não escreveu o próprio roteiro. Começa simples: Mima Kirigoe, cantora do grupo pop CHAM!, decide virar atriz. Alguns fãs não lidam bem com isso e começam a causar problemas. Além de Mima, outros personagens ganham destaque, todos muito humanos… talvez até humanos demais. Não demora para você se apegar à protagonista, sentir seus medos, suas dúvidas e aquela sensação de “eu só queria trabalhar em paz, por que isso está acontecendo?”.

A tensão cresce devagar, mas cresce. Mima tenta se adaptar à nova carreira, enquanto uma stalker cria um diário online fingindo ser ela — e documenta tudo, absolutamente tudo. Mima passa a acessar o diário compulsivamente, encontrando detalhes perturbadores sobre sua rotina, o set de filmagem e até como ela desce do trem. A persona online se recusa a deixar a imagem de estrela pop perfeita morrer, enquanto Mima tenta desesperadamente se reinventar. A indústria começa a pressioná-la, e aí vem uma cena específica — você sabe qual — que é tão desconfortável que dá vontade de pausar o filme e respirar num saco de papel. É brilhante, necessária, cruel e devastadora. É o momento em que vemos Mima perder pedaços de sua identidade diante de nossos olhos, tentando agarrar uma nova versão de si mesma que ainda nem existe.

Kon não brinca em serviço. Sangue, violência, medo e uma atmosfera sufocante vão se acumulando até o filme se tornar quase incompreensível. Satoshi Kon é mestre em confundir o espectador. Conforme o estresse de Mima cresce, fica impossível distinguir sonho, alucinação, filmagem e realidade. Os momentos finais chegam como um caminhão, estilo Amnésia (2000), deixando você sentado no sofá pensando: “Acabou? Assim? Sério?”. Eu precisei ir para fóruns online tentar entender o final. Se você gosta de quebra-cabeças, talvez consiga decifrar na segunda assistida. A estranheza pode ser vista como falha ou como charme — depende do seu nível de tolerância ao caos psicológico.

A animação é excepcional. Nada de olhos gigantes ou cabelos coloridos. O estilo de Kon é realista sem ser hiper-realista. Há pessoas gordas, magras, jovens, idosas — uma variedade de corpos e rostos que raramente vemos em anime. E, surpreendentemente, isso é fascinante de assistir. As cores são um pouco apagadas (1997, né?), mas a animação é maravilhosa. Figurinos, cenários, movimentos — tudo fluido, detalhado e cheio de peso. As cenas de violência e perseguição mostram que os animadores entendem perfeitamente como transmitir impacto em 2D. E a nudez frontal completa é uma das representações mais elegantes e realistas do corpo feminino — sem proporções impossíveis ou “padrão anime”.

“Perfect Blue” é uma excelente porta de entrada para quem quer conhecer animes mais sérios, e um prato cheio para fãs de suspense psicológico. Altamente recomendado para quem gosta de exercitar o cérebro ou quer uma noite de terror/suspense com os amigos. Mas, apesar de eu querer chamá-lo de “imperdível”, aviso: ele não é para todos. Algumas cenas são perturbadoras demais para certos espectadores.

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