
Xavier, um professor de música que já desistiu da carreira antes mesmo dela começar, chega em casa depois de mais um dia gloriosamente frustrante. Lá está Sophie, sua esposa há 25 anos, toda arrumada e pondo a mesa como se fosse receber a realeza. Ela o lembra — com aquela paciência treinada ao longo de décadas — que convidou os vizinhos de cima, Adèle e Alban, para jantar. E, claro, faz Xavier prometer que não vai tocar no assunto proibido: os barulhos noturnos do casal, que transformam o teto em instrumento de percussão.
Mas, ironicamente, quando o jantar mal começou, são justamente os vizinhos que trazem o tema à tona, com a maior naturalidade, como se estivessem pedindo açúcar emprestado.
Essa é a versão francesa de “Sentimental”, de Cesc Gay — agora chamada “Et Plus Si Affinités” (Maybe More, 2024) — sobre o encontro entre um casal exausto e seus vizinhos jovens e… digamos… muito mais animados. Quem viu o original não vai se surpreender com nada, nem mesmo com os diálogos reciclados, mas pelo menos aqui cortaram algumas enrolações (como o marido tentando cancelar o jantar pela 47ª vez). O foco agora é o que realmente importa: o humor ligado à vida íntima alheia.
A adaptação, em seus 78 minutos de duração, mantém o ritmo acelerado e aproveita bem cada cômodo do apartamento, transformando o espaço em palco para uma comédia onde convenções sociais vão sendo desmontadas uma a uma. Mesmo com cara de peça de teatro filmada, o filme se sustenta graças aos diálogos afiados, que contrastam o estilo de vida “liberalíssimo” de um casal com o cansaço existencial do outro.
O elenco ajuda — e muito. Bernard Campan assume o papel com a mesma competência de Javier Cámara. Isabelle Carré entrega uma versão mais doce e maliciosa de Griselda Siciliani. Julia Faure faz o possível como terapeuta animal que resolveu tentar a sorte com humanos, mas não chega ao nível de Belén Cuesta no original.
Mas quem realmente brilha é Pablo Pauly. Ele rouba a cena com olhares, insinuações e aquele charme de quem sabe exatamente o efeito que causa. Sempre que a câmera aponta para ele, alguém ri — ou pelo menos sorri com vergonha.
No fim, “Et Plus Si Affinités” é uma comédia inteligente, mesmo lidando com um tema que poderia facilmente descambar para o desastre. Não vai mudar a vida de ninguém, mas certamente vai encontrar seu público — especialmente entre aqueles que já passaram por um jantar com vizinhos e sobreviveram para contar a história.
















