Nefarious (por Casal Doug Kelly)

Depois de assistirmos o longa-metragem “Nefarious” (2023), podemos afirmar veementemente que, tanto seu trailer, quanto seu gênero, são enganosos. Chamar essa obra de terror é como chamar “O Pequeno Príncipe” de manual de aviação. No máximo, “suspense psicológico” — e mesmo assim, não faz jus ao que o filme realmente é.

Demoramos meses para assistir, mas quando finalmente o fizemos… que grata surpresa. “Nefarious” é uma das representações mais impactantes de possessão demoníaca — e olha que não tem sangue, vísceras, jump scares ou CGI de demônio pulando do teto. Nada disso. O filme é basicamente dois homens sentados conversando. E ainda assim, é mais assustador do que muito filme cheio de efeitos especiais.

O poder do filme está no roteiro — conciso, afiado, surpreendentemente teológico — e na atuação de Sean Patrick Flanery, que está tão bom que parece ter feito um intercâmbio no inferno para estudar o papel. Imagine “Cartas de um Diabo a Seu Aprendiz”, de C.S. Lewis, só que o demônio é um assassino no corredor da morte e, no lugar do sobrinho ingênuo, temos um psiquiatra ateu que acha que já viu de tudo. Spoiler: não viu.

A ideia é simples: o psiquiatra (Jordan Belfi) precisa avaliar Edward John Brady (Flanery) para determinar se ele está mentalmente apto a ser executado naquela noite. O psiquiatra anterior? Suicidou-se antes de entregar o relatório. Clima leve, né?

O que se segue é um duelo verbal intenso. Brady, possuído, fala abertamente sobre seu propósito, sua natureza e seus planos — tudo com uma calma que dá mais medo do que gritos. O psiquiatra tenta racionalizar, diagnosticar, explicar… até que, aos poucos, percebe que talvez não esteja lidando com um caso clínico, mas com algo que desafia tudo o que ele acredita.

O filme aborda temas pesados — eutanásia, aborto, livre-arbítrio, a “grande controvérsia no céu” — tudo sob a perspectiva de um demônio. É uma inversão poderosa, desconfortável e, ao mesmo tempo, fascinante.

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