Era Uma Vez Minha Mãe (por Peter P. Douglas)

Era Uma Vez Minha Mãe (Ma Mère, Dieu Et Sylvie Vartan AKA Once Upon My Mother, 2025), longa-metragem franco-canadense de drama autobiográfico, distribuído pela California Filmes, estreia, oficialmente, nos cinemas brasileiros, a partir de 07 de maio de 2026, com classificação indicativa 14 anos e 102 minutos de duração.

“Já que Deus não pode estar em todos os lugares, ele inventou as mães”. Essa é uma das várias frases reflexivas que o público encontrará no filme “Era Uma Vez Minha Mãe”, dirigido por Ken Scott e baseado no livro homônimo de Roland Perez.

O filme começa com Roland Perez (Jonathan Cohen), um homem de meia-idade, sentado ao computador, digitando como quem está prestes a mandar um e-mail passivo-agressivo. A narração informa que ele nasceu em 1963, e pronto: estamos oficialmente dentro de um conto de fadas moderno.

Roland começa a contar sua história, e logo percebemos que o foco é Esther (Leïla Bekhti), sua mãe — uma mulher religiosa, determinada e com fé suficiente para mover montanhas, oceanos e ortopedistas.

A família Perez, vinda do Marrocos, é unida, barulhenta e cheia de filhos. Esther está grávida do sexto filho: Roland, que nasce com pé torto congênito. A primeira parte do filme é basicamente Esther dizendo: “meu filho vai andar, sim, e quem discordar está errado”. Ela consulta médicos, especialistas, vizinhos, rabinos, talvez até o padeiro — e rejeita todos os diagnósticos realistas com a força de quem acredita que fé e teimosia são a mesma coisa.

O público já sabe para onde isso vai: Roland vai andar. Mas até lá, o filme nos leva por um caminho cheio de tensão, esperança e decisões duvidosas. As autoridades exigem que ele vá à escola e aceite sua deficiência; Esther exige que ele faça um tratamento alternativo com um curandeiro. E no meio disso tudo, Jacques Chirac aparece para entregar uma medalha a Esther… então tá né!

Roland é obrigado a fazer aula de dança (spoiler: não dá certo), tem dificuldades de leitura e descobre Sylvie Vartan na TV, iniciando uma paixão musical que moldará sua vida adulta. O filme passa rapidamente por sua carreira, estudos, casamento e filhos — tão rapidamente que você quase perde o fôlego tentando acompanhar.

Mas o ponto central é sempre Esther. Seu amor é tão grande que vira sombra, presença constante, força motriz e, às vezes, obstáculo. É amor, sim — mas também é controle, sufocamento e aquela sensação de que, mesmo depois de adulta, a pessoa ainda precisa avisar a mãe quando chega em casa.

Para o público que celebra arte francesa, há ainda o bônus cultural: Sylvie Vartan, cantora e atriz icônica, aparece no final do filme celebrando seus 80 anos e deixando Roland em estado de fã desmaiado.

O filme é emocionante. Eu chorei várias vezes — e não me arrependo. Não é perfeito: algumas transições são bruscas, o ritmo às vezes tropeça, e certas partes poderiam ser mais desenvolvidas. Mas Bekhti e Cohen têm uma química tão poderosa que carregam tudo nas costas.

No geral, “Era Uma Vez Minha Mãe” é uma jornada emocional complexa: a história de um menino que aprende a andar, de uma mãe que nunca para de empurrá-lo (literal e metaforicamente), e de um homem que precisa, finalmente, aprender a caminhar sozinho — mesmo que isso signifique se afastar da sombra que o formou.

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