
Veneno Para As Fadas (Veneno Para Las Hadas AKA Poison For The Fairies, 1986), longa-metragem mexicano de terror, distribuído pela Filmicca, reestreia, oficialmente, nos cinemas brasileiros, a partir de 23 de abril de 2026, com classificação indicativa 16 anos e 90 minutos de duração.
Há quarenta anos, um dos filmes de terror mais aclamados do México foi lançado… e você provavelmente nunca ouviu falar dele. Não se culpe: quando pensamos em terror internacional, lembramos do Japão, da Coreia, da França, da Espanha, dos EUA… e o México fica ali no canto, levantando a mão e dizendo “oi, eu também existo”. Na época, o país exportava principalmente comédias picantes, então um terror realmente bom era quase um evento sobrenatural por si só.
E aí surge Verónica, uma garotinha tão angelical quanto perturbadora, interpretada por Ana Patricia Rojo. Órfã desde cedo, criada pela babá numa casa enorme e decadente, convivendo com uma avó imóvel e histórias de bruxas contadas como se fossem contos de ninar. Resultado: uma criança estranha, numa escola rígida, sem amigos e com imaginação suficiente para assustar até o capeta.
Mas então chega Flavia (Elsa María Gutiérrez), a nova aluna — aquela que claramente não sabe no que está se metendo. As duas viram amigas, ou cúmplices, ou vítimas uma da outra, dependendo da cena. Elas matam aula para ver múmias no museu (como toda criança saudável faria), exploram a casa sinistra de Verónica e conversam sobre missas negras, corujas empalhadas falantes e voos de vassoura como se estivessem discutindo o dever de matemática.
E claro: fazem um pacto com o diabo. Porque? Por que não, né? Verónica leva tudo tão a sério que chega a ser cômico — cômico e assustador, aquela mistura que faz você rir nervoso.
Quando a invocação “funciona” e impede as aulas de piano de Flavia, essa entra em pânico. Mas a explicação real é tão banal que chega a ser engraçada — pena que ninguém conta isso para a pobre Flavia, que fica se corroendo de culpa enquanto Verónica esfrega as mãos e pensa: “ótimo, agora posso chantageá-la”.
A família de Flavia planeja férias no rancho, e Verónica dá um jeito de se convidar. O que começa como passeios bucólicos vira rapidamente uma missão para fabricar veneno de fada, porque, segundo Verónica, bruxas odeiam fadas e precisam matá-las sempre que possível. Flavia tenta desistir, mas Verónica usa a culpa como arma e ainda exige o cachorro da amiga, o adorável Hippy. A menina está tão fora da realidade que parece ter feito estágio com a Malévola.
Tudo culmina no clímax no celeiro, à noite, com a poção pronta e Hippy sendo arrastado como peça-chave do ritual. É aí que o filme mostra a que veio.
O terror aqui não é feito de jump scaries, mas de atmosfera, tensão e a sensação constante de que a inocência infantil é um terreno perigoso. Os adultos aparecem sem rosto, como entidades distantes, quase irreais — o que faz todo sentido, já que a história é contada pelos olhos das crianças.
E, convenhamos, para crianças, o mundo é um lugar assustador: cheio de regras incompreensíveis, monstros imaginários (ou não), segredos, mentiras e advertências como “o homem do saco vai te pegar”. A linha entre fantasia e realidade é tão fina que dá para tropeçar nela.
Verónica, apesar de suas tendências demoníacas, é uma criança solitária, criada por uma avó imóvel e uma babá que achou que histórias de bruxas eram uma boa ideia. Ela não distingue fantasia de realidade e usa suas fantasias de poder para compensar sua impotência no mundo real. Isso a torna má? Ou apenas uma criança com imaginação demais e supervisão de menos?
No fim, o filme deixa você se perguntando: quem é o verdadeiro vilão? Verónica? A negligência adulta? A imaginação infantil? O diabo? O cachorro? Difícil dizer! O que dá para afirmar é que os gritos de “FLAVIA!” vão ecoar na sua cabeça por dias. E você nunca mais vai olhar para crianças da mesma forma.
Hoje, pode parecer um filme lento, focado em personagens, mas na época de seu lançamento foi desbravador, um verdadeiro revolucionário. E por isso é considerado um clássico.
















