O Iluminado, 1997 (por Peter P. Douglas)

Este texto trata do que alguns chamariam de um remake da adaptação do livro “O Iluminado”, de Stephen King. No entanto, não considero esse termo apropriado para esta obra em particular. A ideia original sempre foi de King, e aqui ele simplesmente a realiza da maneira que desejava. Como o próprio autor afirmou, “a versão de Stanley Kubrick não era assustadora”. Ele queria ver seu romance representado de forma fiel e, como disse em uma entrevista: “se você quer algo bem feito, você tem que fazer você mesmo”. Não sou muito fã da versão de Kubrick e reconheço que o filme de 1980 decepciona em certos aspectos. Kubrick reescrevia a história constantemente, afastando-se bastante do romance original.

Nesta adaptação de 1997, a obra assume o formato de uma minissérie televisiva americana, como outras produções baseadas em King (The Stand, The Golden Years, Storm of the Century, Rose Red, IT e Nightmares and Dreamscapes). Diferente da versão condensada de Kubrick, aqui o terror demora mais a se estabelecer, mas quando finalmente surge, é implacável — quase ultrapassando os limites do que a televisão permitia exibir na época.

A narrativa é contada diretamente da perspectiva de King. Muito mais conteúdo do romance foi incorporado, incluindo elementos que não estavam presentes originalmente, como os Alcoólicos Anônimos. King afirmou que não conhecia o grupo quando escreveu o livro, mas quis incluí-lo nesta adaptação. É natural que muitos associem Jack Nicholson e Shelley Duvall aos papéis principais, mas acredito que Steven Weber (Drácula: Morto, Mas Feliz) e Rebecca De Mornay (A Mão que Balança o Berço) entregam atuações excelentes. King, inclusive, já imaginava Rebecca como Wendy antes mesmo da versão de Kubrick existir. Na minha opinião, ela se sai muito bem. Minha única ressalva fica para o novo Danny Torrance (Courtland Mead), que em alguns momentos parece apagado, embora cumpra adequadamente o papel da criança ameaçada pelo pai alcoólatra.

Como era de se esperar de uma produção televisiva, não há palavrões ou violência gráfica extrema. Isso não significa que falte intensidade: a violência doméstica permanece, apenas adaptada aos padrões da TV. Alguns cortes foram necessários por questões de tempo, mas King lutou para preservar tudo o que fosse essencial à história — e conseguiu. Há sangue e momentos perturbadores suficientes para quem teme que esta versão seja “suavizada”. King entrega o que promete.

Assim como em outras obras do autor, a minissérie dedica tempo para desenvolver os personagens. Jack começa completamente são e, aos poucos, mergulha na loucura ao se hospedar no Hotel Overlook — filmado no verdadeiro Hotel Stanley, que inspirou King. O elenco traz participações de rostos conhecidos do final do século passado: Pat Hingle apresenta a Jack a sala das caldeiras; Shawnee Smith surge quase de relance; Sam Raimi, Miguel Ferrer e Frank Darabont também aparecem; o diretor Mick Garris surge como Hartwell, um alcoólatra; e Stephen King faz sua tradicional ponta.

Entre as diferenças mais marcantes em relação ao filme de Kubrick estão as árvores em forma de leão que ganham vida e perseguem Danny — presentes no livro, mas ausentes no filme de 1980. Também não há o corredor com móveis e sangue flutuando. Tony, que no filme original era “o menino que vivia na boca de Danny”, aqui aparece como uma figura humanóide mais velha, atuando como guia espiritual. O machado é substituído por um grande martelo de madeira, igualmente ameaçador. O estilo de direção difere bastante do de Kubrick, exceto por uma cena alucinatória que remete ao original. O famoso “Here’s Johnny!” é trocado por um simples “Buu!”. A máscara de lobo aparece ocasionalmente, e a trilha sonora, embora diferente, mantém o clima inquietante. A mulher da banheira, interpretada pela maquiadora Cynthia Garris, é ainda mais perturbadora nesta versão. Há também referências sutis a outras obras de King, incluindo “Cemitério Maldito”, para quem conseguir identificar.

No geral, a minissérie “O Iluminado” (The Shining, 1997) vale muito a pena ser assistida, desde que você consiga superar o fato de que Jack Nicholson não é Jack Torrance nessa versão, o que parece ser o maior problema para a maioria dos espectadores.

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