Favela Amarela (por Peter P. Douglas)

Favela Amarela (2026), curta-metragem brasileiro, com 21 minutos de duração, exibido durante o 22º Fantaspoa, realizado entre os dias 8 e 26 de abril de 2026. A obra é dirigida e roteirizada por Nícolas Lobato e Thiago Tuchu.

A história se passa no fictício Morro do Rato Baleado, no Rio de Janeiro. O protagonista é Damião (Richard Abelha), um jovem que vive uma rotina exaustiva de “tripla jornada”: 1) De dia: Trabalha no mercadinho local do Sr. Kalunga (Leo Xavier); 2) De tarde: Cursa a faculdade de Direito de forma online (EAD) para tentar mudar de vida; 3) De noite: Trabalha para o tráfico local como “atividade” (vigia), garantindo a “segurança” da comunidade contra as autoridades. Isso porque – quando o dinheiro apertou para conseguir pagar as mensalidades e o aluguel do seu barraco – foi assim que seu melhor amigo Juninho (Sain) pôde “ajudá-lo”. Afinal, no Brasil, às vezes a vida te dá limões e às vezes te dá um fuzil.

E é durante um de seus plantões noturnos que Damião começa a notar movimentações estranhas e sinistras na mata que circunda o morro. Avistando figuras encapuzadas que se esgueiram pela floresta em direção a uma antiga igreja abandonada. Esses acontecimentos ocorrem durante a passagem da estrela Aldebaran, conhecida como Olho de Touro, no espaço.

A partir daí, o curta vira uma espiral de descobertas, como a de uma ONG de projetos sociais, que supostamente ajuda os moradores da periferia, mas na verdade serve de fachada, inclusive, para sequestros. Entre seus integrantes está Natasha (Giselle Batista), uma jovem misteriosa que ronda Damião.

A seita realiza rituais de sacrifício humano dedicados a uma entidade, tão antiga e incompreensível quanto o próprio universo, conhecida como o “Rei de Amarelo”. Os moradores da favela são escolhidos como vítimas justamente por sua “invisibilidade social” — o desaparecimento deles raramente causa repercussão nos estratos mais altos da sociedade, tornando-os o “combustível” perfeito.

A excelente direção de Nícolas Lobato e Thiago Tuchu abraça o fantástico com a tranquilidade de quem sabe que, no Brasil, a realidade já é tão surreal (basta olhar os noticiários) que pouca coisa pode se tornar improvável.

O curta possui uma qualidade técnica invejável, seja em imagem (enquadramentos, resolução e efeitos especiais) ou no som. Este último, — que costuma ser o mais traiçoeiro para o público em se tratando de obras nacionais — não trouxe nenhuma dificuldade no entendimento da dicção dos atores. O elenco também se destaca, por não atuarem de forma robótica e sim espontânea.

O roteiro (felizmente!) não cai na velha armadilha de retratar a favela como se fosse um catálogo de tragédias humanas. Aqui, as dificuldades existem, claro — ninguém está vivendo num comercial de tv — mas aquela desgraça diária mostrada sempre no volume máximo fica de lado. É quase chocante ver uma obra ambientada na favela que não tenta competir com “Cidade de Deus” (2002) no quesito sofrimento.

O único ponto negativo aparece por pura ambição narrativa: o curta quer contar uma história grande, cheia de camadas, tentáculos metafóricos e mistérios interdimensionais… tudo em poucos minutos. Resultado: quem não está acostumado com escritores cósmicos vai ficar boiando bonito, olhando para a tela como quem tenta entender contas matemáticas às três da manhã.

Mas, convenhamos, se a ideia é trazer horror cósmico, um pouquinho de confusão faz parte do pacote. Afinal, nada diz “horror interdimensional” como o espectador pensando: “pera, o que foi que eu acabei de ver? E porque terminou assim?”.

Em geral, “Favela Amarela” não é apenas um curta-metragem. É o embrião de um projeto bem mais ousado, que inclui o lançamento de uma HQ e de um futuro longa-metragem nessa mistura de Robert W. Chambers e H.P. Lovecraft com o cotidiano de uma favela do Rio de Janeiro.

Compartilhe

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *