
Anátema (Anatéma AKA Anathema, 2024) é exatamente aquele tipo de projeto que só poderia nascer da cabeça de um cineasta como Álex de La Iglesia e de quem resolve acompanhá‑lo nessa aventura: uma mistura de ambição, reverência ao terror europeu e um amor por temas que o cinema espanhol sempre tratou como tabu.
O problema é que, desta vez, – no novo título, do selo de terror “The Fear Collection” – a soma das ideias é mais interessante do que o resultado final. Existe um filme brilhante escondido dentro de “Anátema”, mas ele vive brigando com outro filme — um mais apressado, mais remendado e menos cuidadoso — que insiste em aparecer.
A premissa é excelente. Uma freira arquiteta enviada para investigar um templo decadente em Madri, construído sobre passagens subterrâneas que remetem a lendas urbanas reais, já seria suficiente para um terror atmosférico de primeira. Quando o roteiro mistura isso com ecos da Guerra Civil, horrores cósmicos, catolicismo, segredos enterrados e uma cidade cheia de camadas históricas, o potencial explode.
E, de fato, o filme acerta quando abraça esse lado. A ambientação é rica, cheia de detalhes culturais, cheiros, rituais, hábitos e pequenos objetos que dão vida àquele microcosmo religioso madrilenho. A fotografia, com sua cara de documentário, reforça a sensação de que estamos entrando num subterrâneo real, não num cenário de estúdio. Mas aí vem o outro lado.
O terror em si não acompanha a força da proposta. As aparições são abruptas, os efeitos especiais são risíveis de tanto que deixam a desejar, a edição parece travar uma guerra interna e algumas cenas soam tão desconexas que parecem ter sido coladas às pressas. A sensação é de que havia um filme mais sólido no material bruto, mas que a montagem final não conseguiu encontrá‑lo.
Ainda assim, o filme lembra aquelas produções italianas de terror dos anos 80: orçamento curto, ideias enormes, execução irregular, mas um espírito tão peculiar que você continua assistindo mesmo quando sabe que algo não está funcionando.
Em geral, é o tipo de obra que você recomenda com cuidado, sabendo que metade das pessoas vai amar e a outra metade vai te ligar perguntando por que você sugeriu aquilo. E, sinceramente, isso já diz muito sobre o cinema de Álex de La Iglesia e seus parceiros: quando funciona, funciona porque ousa; quando falha, falha pelo mesmo motivo.















