
Alpha (2025), longa-metragem francês de drama e body horror, distribuído pela O2 Play e Mubi, estreia, oficialmente, nos cinemas brasileiros, a partir de 04 de junho de 2026, com classificação indicativa 18 anos e 128 minutos de duração.
Julia Ducournau — sim, a diretora e roteirista por trás de “Raw” (2016) e “Titane” (2021) — voltou com seu terceiro longa, “Alpha”. E olha… eu entendo perfeitamente por que Cannes torceu o nariz. Eu também fiquei ali, sentado, tentando entender o que estava acontecendo, como se estivesse fazendo prova de física quântica sem ter estudado.
O filme já começa com um sujeito sendo “tatuado” por uma criança, que o faz como quem está passando manteiga no pão. Em seguida vemos Alpha (Mélissa Boros), uma menina de treze anos bêbada (agora sim de verdade) sendo tatuada com um “A” no braço. Naturalmente, pensei: “Ah, ok, vamos explorar subculturas de modificação corporal”. Mas não. Ducournau olhou para mim, riu e disse: “Você acha que sabe para onde isso vai? Fofo”.
A mãe de Alpha, uma médica interpretada por Golshifteh Farahani, entra em modo “mãe que sabe demais”: desinfeta tudo, pergunta da agulha, manda fazer exame de sangue. Mas não por causa do vírus que você está pensando. Não, não. Aqui o vírus transforma a pele das pessoas em mármore rachado, com veias azuis saltadas e tosses que parecem saídas de um aspirador de pó possuído. É grotesco e lindo ao mesmo tempo — o que, convenhamos, é a marca registrada de Ducournau.
O mundo de “Alpha” é expressionista até o último pixel. Céu eternamente nublado, ataques de pânico que se transformam em tempestades noturnas, poeira vermelha cobrindo tudo como se o apartamento estivesse no meio de Marte. A escola é tão decadente que parece cenário de filme pós‑apocalíptico com baixo orçamento. E Alpha, claro, está lá tentando viver sua adolescência enquanto sangra em absolutamente todos os lugares possíveis: no retroprojetor, na bola de vôlei, na piscina… e sempre com a maior naturalidade do mundo.
Apesar de tudo isso, “Alpha” não é exatamente terror. É mais um drama com horror corporal de brinde. A prova? Os cartazes mostram gente se abraçando. E, como sempre, Ducournau equilibra o grotesco com uma empatia tão radical que você se pega torcendo por personagens que, em qualquer outro filme, você atravessaria a rua para evitar.
A relação central é entre Alpha e seu tio Amin (Tahar Rahim), que aparece no quarto dela como se fosse a coisa mais normal do mundo. Ele é magro, trêmulo, viciado, assustador… e, ainda assim, Ducournau faz você se importar com ele. É o clássico personagem dela: começa como “tio Frank de Hellraiser (1987) versão indie” e termina como alguém que você quer proteger, mesmo sabendo que ele vai te levar para um bar duvidoso às três da manhã.
A família completa (avó e tias) de Alpha é calorosa, barulhenta, cheia de tradições e magia popular. Mas ninguém cuida de Amin como a mãe de Alpha. Ela o salva, o reanima, o segura no fio da vida. E agora Alpha herda esse papel, mesmo sendo “muito jovem”, como ela repete várias vezes — e com razão.
Aviso importante: o filme alterna entre duas linhas temporais. Só que Ducournau não te avisa. A única pista é o cabelo da mãe — cacheado no passado, liso no presente. Eu, inocente, achei que ela só tinha mudado de penteado. Só quando ela menciona que a filha tem cinco anos é que percebi que o filme estava brincando comigo. É uma reviravolta que exige atenção de ninja.
No fim das contas, “Alpha” é mais alegoria do que narrativa, mais metáfora do que história. É belíssimo, bem dirigido, com atuações incríveis… mas definitivamente não é para o grande público. É para quem gosta de decifrar símbolos, desvendar o que cada cena quer dizer em detrimento ao divertimento simples.











