
A Sombra do Meu Pai (My Father’s Shadow, 2025), longa-metragem dramático, coprodução Grã-Bretanha e Irlanda, distribuído por Filmes da Mostra, estreia, oficialmente, nos cinemas brasileiros, a partir de 30 de abril de 2026, com classificação indicativa 12 anos e 94 minutos de duração.
O que realmente fica de “A Sombra do Meu Pai” não é a política, nem a trama, nem os militares mal-humorados. O que fica é a textura da memória: o calor que faz você suar só de olhar, o barulho das ruas que parece ter sido gravado com o volume no máximo, e a cumplicidade silenciosa entre dois irmãos tentando entender um mundo que insiste em ser complicado.
Estamos em 1993, Nigéria. Remi (Chibuike Marvellous Egbo) de 11 anos e Akin (Godwin) de 08 anos, são irmãos (também na vida real), que brincam no quintal da casa simples localizada em uma vila interiorana de Ibadan. Eles estão felizes, suados e provavelmente brigando por algum motivo bobo. A mãe saiu para fazer compras — e, como toda criança, eles acham que ela nunca mais vai voltar. Quando entram, descobrem que o pai, Folarin (Sope Dirisu), reapareceu do nada. Ele vive sumindo para trabalhar em Lagos (maior cidade do país e antiga capital), então sua aparição repentina tem a mesma energia de um NPC que surge só para dar missão.
Folarin anuncia que precisa voltar para Lagos imediatamente e, após ver a reação dos filhos, sugere que estes o acompanhem. Sem esperar a mãe. Sem mala. Sem lanche. Sem nada. E lá vão eles: ônibus lotado, carona improvisada e uma viagem rumo a uma cidade em plena eleição, num país cansado de ditadura e pronto para explodir. Toda a trama acontece em um único dia.
O diretor Akinola Davies Jr., que não fez faculdade de cinema (o que sempre deixa os cineastas formados um pouco irritados), apresentou o filme em Cannes e ainda levou um BAFTA para casa. Ele escreveu o roteiro com o irmão Wale, transformando memórias de infância em cinema. A obra começa flertando com uma edição fragmentada e pitadas de found footage, contudo logo vira uma narrativa mais tradicional.
O público vivencia uma vasta metrópole africana pelos olhos de uma criança — uma que se recusa a dividir seu sorvete com o irmão e flagra o pai flertando com uma garçonete. Ele tenta uma conversa mais adulta, contando a seu genitor como é difícil para a mãe criar dois filhos sozinha. Porém, Folarin está absorto em suas próprias dificuldades, tentando — sem sucesso — receber 6 meses de salários atrasados de uma fábrica.
Os meninos percebem que o pai tem uma vida paralela em Lagos, cheia de segredos, amigos misteriosos e talvez até envolvimento político. Mas o filme não está interessado em explicar tudo. Ele prefere deixar no ar, como toda boa memória de infância que nunca fez sentido.
A fotografia de Jermaine Canute Edwards transforma Lagos em um organismo vivo: motos, caminhões, soldados, pontes gigantes e uma energia que faz São Paulo parecer silenciosa. Os meninos atravessam a maior ponte da África e descobrem um mundo novo — e o público descobre junto.
No fim, “A Sombra do Meu Pai” não quer revelar a verdade sobre Folarin. Quer mostrar como as crianças percebem o mundo: sentem muito, entendem pouco, e preenchem o resto com imaginação. O pai é ao mesmo tempo herói e estranho, próximo e distante.
















