À sombra do sol, documentário dirigido por Hugo Haddad e Isadora Canela, tem estreia brasileira na 50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo

Longa acompanha a trajetória do professor com ascendência Guarani Germano Afonso, referência nos estudos sobre astronomia indígena no Brasil

Um encontro entre ciência e ancestralidade, atravessado por perda, urgência e descoberta. Esse é o ponto de partida de À sombra do sol (Solar Shadow), primeiro longa-metragem de Hugo Haddad e Isadora Canela,  que terá première brasileira na 50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, após estrear mundialmente no Hot Docs, um dos principais festivais de cinema documental do mundo, realizado anualmente em Toronto, no Canadá. Também integrou a seleção do Mumbai International Film Festival (MIFF) em junho deste ano, na Índia.  

Serão três exibições no evento paulistano: no dia 18 de outubro, às 19h30, no Espaço Petrobras de Cinema; no dia 21 de outubro, às 19h30, no Cinesystem Belas Artes Frei Caneca; e no dia 26 de outubro, às 14h, também no Espaço Petrobras de Cinema. Com produção de Victoria Mazzia e articulação local de Diakara Dessano e Marcelina Moreira, À sombra do sol acompanha e reconstrói a trajetória do professor guarani Germano Afonso, referência nos estudos sobre astronomia indígena no Brasil. 

Após uma formação acadêmica tradicional, que inclui passagem pela Sorbonne, em Paris, Germano retorna ao país decidido a investigar os conhecimentos ancestrais dos povos originários sobre o céu, saberes historicamente negligenciados pela ciência ocidental.

“O filme chega às telas do nosso país falando sobre os saberes e a ciência indígena brasileira, mostrando o quanto esses conhecimentos são potentes. Queremos um Brasil soberano, em que tenhamos orgulho das riquezas que estão dentro de cada um de nós, nas identidades e nos saberes plurais que formam o nosso país”, comenta Isadora Canela, codiretora de À sombra do sol.

Mais sobre o filme

Com 75 minutos de duração, o documentário combina imagens de arquivo de eventos e aulas do professor Germano, narração sensorial e uma construção que atravessa diferentes paisagens do Brasil, da Amazônia ao Sul do país. Entre poesia estelar, conhecimentos astrofísicos e ocidentais, a narrativa do filme passeia por comunidades indígenas em busca da preservação dos saberes astronômicos e suas raízes. Entre eclipses e constelações, o longa propõe uma confluência entre ciência ocidental e ciências indígenas, abrindo espaço para encontros e transformações.

Nesse percurso, À sombra do sol, que conta com direção de fotografia de Alberto Alvares, cineasta indígena da etnia Guarani Nhandewa, e Carlos Ramon, encontra personagens raros: de um dos pajés mais antigos do Brasil a ex-alunos e lideranças indígenas que carregam, na prática, uma relação profunda entre observação do cosmos, espiritualidade e vida cotidiana.

A produção do longa sofre uma virada decisiva com a morte de Germano, vítima da Covid-19, ainda no início das filmagens. Sem seu principal guia, os diretores transformam o projeto em uma jornada própria, percorrendo diferentes territórios indígenas em busca das pessoas que mantiveram viva a pesquisa do professor.

Também diretor de À sombra do sol, Hugo Haddad vê um simbolismo na seleção do filme para esta edição celebrativa de 50 anos da Mostra SP. “O longa tem como base o trabalho do professor Germano, que dedicou mais de 30 anos a estudar, registrar e preservar conhecimentos sobre astronomia indígena. Assim como na pesquisa científica, fazer um filme ou promover um festival de cinema tão importante exige tempo, confiança no que estamos construindo e energia para continuar”. 

À sombra do sol será distribuído nos cinemas brasileiros pela Cajuína Audiovisual e tem representação internacional da Utopia Docs, uma agência de vendas internacional baseada no Brasil e na Europa, com foco em documentários latino-americanos. Saiba mais em: https://www.instagram.com/utopia_docs 

Sinopse e realizadores:

À sombra do sol – direção: Hugo Haddad e Isadora Canela – Brasil – Documentário – 75 min

Sinopse 

Dia, chuva, lua, constelações. Enquanto você lê este texto, como está o céu? O que as estrelas te dizem sobre o dia de amanhã?

Acompanhando um físico de ascendência Guarani, um pajé centenário do Sul do país e um líder Dessano da Amazônia, o filme é uma investigação poética e meditativa sobre a astronomia indígena ancestral no Brasil. Entre aulas, conversas e memória comunitária, reflete sobre conhecimento, perda e as múltiplas formas de compreender o cosmos.

Sobre Hugo Haddad

Hugo Haddad é um diretor e ator brasileiro, natural de Belo Horizonte, Minas Gerais. Sua trajetória artística começou no cinema, onde trabalhou por quase uma década como montador antes de se tornar diretor, desenvolvendo uma forte relação com ritmo, silêncio e construção de sentidos. Seu trabalho transita entre ficção e documentário, frequentemente abordando temas como território, memória e transformação. Alguns de seus trabalhos em destaque são o curta-metragem Linhas Tênues (2020), selecionado para festivais como o LABRFF e o Women’s Film Festival, na Polônia, centrado na escravidão contemporânea na indústria da moda; e o curta-metragem Sonhos Concretos, que propõe uma reflexão sobre liberdade, invenção e ocupação dos espaços urbanos ao aproximar dois universos, o da arquitetura modernista de Oscar Niemeyer e o do skate do medalhista olímpico Pedro Barros, revelando uma afinidade profunda entre ambos: a busca por ruptura, fluidez e novas formas de habitar o mundo.

Seu primeiro longa-metragem, À Sombra do Sol, um filme sobre astronomia indígena, está com sua estreia marcada para abril de 2026, no Hot Docs Canadian International Documentary Festival, em Toronto, Canadá, um dos mais prestigiados festivais de documentário do mundo.

Em 2021, Haddad participou do programa Filmando un Planeta Extraño, passando um mês nas Ilhas Canárias trabalhando com o diretor alemão Werner Herzog. No mesmo ano, seu conto Março foi selecionado para o Ideas Lab com Paulo Lins, autor do consagrado romance Cidade de Deus.

Atualmente, sua prática principal é a atuação, entendendo essa performance como uma extensão de seu pensamento cinematográfico. Em 2025, integrou o elenco principal da minissérie original da Netflix Brasil 70 – A Saga do Tri, que fará sua estréia em maio de 2026, interpretando o goleiro Félix. No mesmo ano, dirigiu o curta-metragem Das Ding, com Bárbara Luz (Ainda Estou Aqui) e Eduardo Moreira (Grupo Galpão) no elenco. 

Sua formação artística inclui também a Escola de Teatro Galpão Cine Horto, a Escola de Palhaçaria Maria Cutia e a Residência de Cinema Nouvelle Bug na Itália.

Sobre Isadora Canela

Isadora Canela é uma artista visual, cineasta e pesquisadora brasileira, originária da região minerada de Brumadinho, Minas Gerais. Seu trabalho aborda a narrativa como uma prática regenerativa de descolonização do corpo, da terra, dos povos e do pensamento no contexto do Antropoceno. Em 2023, co-fundou a Collective Webs, atuando na conexão entre arte e educação para impacto socioambiental por meio da biomimética e de abordagens interdisciplinares. Atualmente, desenvolve um doutorado em Justiça Social na University of Wales Trinity Saint David e, em 2024, recebeu uma bolsa na Harvard Kennedy School para o programa Public Narrative: Leadership, Storytelling, and Action.

A prática de Isadora integra as artes a projetos de construção da paz e regeneração comunitária, promovendo processos de reconciliação entre humanos e mais-que-humanos. Seus projetos defendem soluções baseadas na cultura para crises ambientais complexas, entrelaçando saberes locais e ancestrais com perspectivas globais. Seu trabalho tem gerado impacto local e internacional por meio de projetos artísticos, filmes e intervenções que vão das montanhas mineradas de Minas Gerais até o coração da floresta amazônica, ecoando outras formas de relação entre as pessoas e o mundo vivo. Internacionalmente, seu trabalho alcançou comunidades em cidades como Berlim, Munique, Croácia, África do Sul e Islândia, entre outras, sempre colocando a arte e a narrativa como infra estruturas vivas para o diálogo, a cura e a transformação sistêmica.

Sobre o Professor Germano Bruno Afonso 

Germano Bruno Afonso, de ascendência Guarani, foi um astrônomo, professor e pesquisador brasileiro, reconhecido por sua contribuição à ciência e ao diálogo entre conhecimentos acadêmicos e saberes indígenas. Realizou Pós-Doutorado em Astronomia pelo Observatoire de la Côte d’Azur e doutorado em Astronomia de Posição e Mecânica Celeste pela Sorbonne Université. Foi mestre em Ciências Geodésicas e graduado em Física pela Universidade Federal do Paraná, instituição onde também atuou como Professor Titular de Física.

Ao longo de sua carreira, foi autor de obras fundamentais para a difusão da astronomia indígena no Brasil, entre elas o livro O Céu dos Índios Tembé, que recebeu o Prêmio Jabuti e recebeu o Prêmio de Ciência e Tecnologia do Estado do Paraná, em reconhecimento à sua atuação científica.

Sua trajetória foi marcada por contribuições nas áreas de cálculo de órbitas de objetos próximos da Terra (NEOs), forças não gravitacionais, arqueoastronomia, astronomia indígena, além da educação e popularização da ciência e tecnologia, deixando um legado relevante na construção de pontes entre diferentes formas de conhecimento.

Alberto Alvares (Diretor de fotografia Guarani)

Alberto Alvares é cineasta indígena da etnia Guarani Nhandewa, nascido na aldeia Porto Lindo, Mato Grosso do Sul, professor e tradutor de Guarani. Mora no Estado do Rio de Janeiro desde 2010, período em que passou a se dedicar ao audiovisual como realizador e formador. Cursou a Graduação em Licenciatura Intercultural para Educadores Indígenas, pela Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais, e atualmente realiza mestrado no Programa de Pós-Graduação em Cinema e Audiovisual na Universidade Federal Fluminense – PPGCINE.

Jaime Diakara (um dos protagonistas do filme)

Também conhecido por Jaime Moura Fernandes, é um professor, ilustrador e escritor brasileiro, de etnia desana. Entre vários prêmios, foi vencedor em 2013 da coleção PROARTE de Literatura, da Secretaria de Cultura do Estado do Amazonas.

Pertencente ao povo desana do Grupo Wari Diputiro Porã, Jaime Diakara graduou-se em Licenciatura em Pedagogia Intercultural Indígena pela Universidade do Estado do Amazonas (UEA), e é mestre em Antropologia social pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM). Em 2024, lançou seu livro Nũkũ Wiímũ Kihty – Um conto nunca contado, com apresentação de Daniel Munduruku.

Pajé Wherá Tupã (um dos protagonistas do filme)

O tcheramoi (ancião) Alcindo Moreira Wherá Tupã foi um respeitado líder espiritual e pajé Guarani que faleceu em setembro de 2024, aos 114 anos. Conhecido como o “pajé que falava com as árvores”, ele vivia na aldeia Yynn Moroti Wherá em Biguaçu, Santa Catarina, atuando na defesa dos direitos indígenas e na preservação da cultura.

Marcelina Takua

Conhecida como Marcelina Moreira, é uma liderança indígena da comunidade Tekoá Mymba Roká, em Biguaçu (SC). Filha da anciã Sônia Takua, sua trajetória é guiada pelos saberes tradicionais guarani e pela espiritualidade de seu povo. Conduz rituais de medicina ancestral e cerimônias de cura e purificação, criando espaços de reconexão espiritual, escuta e fortalecimento coletivo. Atua como guardiã de conhecimentos transmitidos por gerações, com seu trabalho voltado à preservação da cultura, do território e da identidade Guarani.

Cajuína Audiovisual

A Cajuína Audiovisual nasceu para contribuir com a diversidade e a pluralidade na distribuição do cinema brasileiro, e, desde 2023, vem impulsionando a circulação de filmes independentes por meio de estratégias de mobilização. A distribuidora trabalha com longas e curtas-metragens que marcam presença nos principais festivais nacionais e internacionais. Nossa equipe reúne profissionais com experiência consolidada em distribuição, curadoria e programação. 

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