
Feito Pipa (2026), longa-metragem nacional dramático, distribuído pela Paris Filmes, estreia, oficialmente, nos cinemas brasileiros, a partir de 05 de novembro de 2026, com classificação indicativa 10 anos e 93 minutos de duração.
“Feito Pipa”, dirigido por Alan de Berton e selecionado como o representante do Brasil na corrida pelo Oscar de Melhor Filme Internacional (2027), acompanha o amadurecimento (coming-of-age) de Gugu (Yuri Gomes), um menino sonhador e homossexual criado com grande liberdade pela avó, Dilma (Teca Pereira), às margens de um açude seco no interior do Ceará.
O grande conflito se instala quando a avó começa a apresentar sinais de uma doença degenerativa (perda de memória / Alzheimer/demência senil). Com pavor de que Dilma perca a sua guarda e que seja obrigado a morar com o pai, Batista (Lázaro Ramos), Gugu tenta ocultar a deterioração cognitiva da avó ao mesmo tempo em que lida com suas próprias aspirações, sua paixão pela dança e as pressões de seu contexto social.
O roteiro, assinado por André Araújo, deve ser elogiado pois, ao invés de colocar o protagonista diante de uma escolha clichê entre gostar de futebol ou de dança, o filme une ambos como parte da vivência e da identidade do garoto.
Ademais, há um duplo e belo movimento no roteiro: enquanto Gugu expande sua presença no mundo e resgata memórias sobre seu passado e sua mãe falecida, a avó vai gradualmente se retirando do mundo devido à falha de memória.
A direção de fotografia de Luciana Bacedo e Daniel Donato utiliza as águas recuando pela seca para expor os escombros de uma cidade antiga inundada. Essa paisagem serve como uma metáfora visual primorosa para a mente de Dilma: enquanto o presente evapora, restam apenas os vestígios de um passado submerso.
Todo o elenco, seja ele de apoio ou protagonismo, funciona muito bem, mas da tríade principal de atores é o jovem talento Yuri Gomes (Gugu) que deve ser exaltado, pois apresenta uma expressividade corporal magnética, transitando com naturalidade entre a euforia coreografada e o desamparo profundo. É um grande acerto na complexa seleção de elenco infantil do filme.
O diretor Alan de Berton demonstra amadurecimento expressivo na carreira, unindo a tradição do cinema nacional de denúncia e infância no sertão a registros atuais de identidade (Tomboy, 2011). O ritmo é cadenciado, com pausas bem dosadas e que dão respiro à duração (ainda que tenha sentido que algo poderia ter sido enxugado).
No geral, “Feito Pipa” é um filme de grande sensibilidade, que mostra o afeto umbilical entre neto e avó, prestes a se romper. Direto, sem muito açúcar e, principalmente, sem crueldade gratuita.












