
“Não existem prazos que nunca se vencem, nem dívidas que nunca são pagas.” Esse é o mantra repetido pelo taxista do filme “Night Fare” (2015), um motorista silencioso, tatuado e com a vibe de samurai urbano que patrulha as ruas de Paris como se estivesse em missão espiritual. Numa noite qualquer, ele pega dois velhos amigos: Chris (Jonathan Howard) e Luc (Jonathan Demurger), um pequeno traficante que decide não pagar a corrida. Má ideia. O Taxista não aceita calote — e passa a persegui-los pelas ruas desertas com a determinação de um predador que não tem nada melhor para fazer.
A premissa parece familiar, mas o roteirista/diretor Julien Seri começa a brincar com nossas expectativas. Aos poucos, percebemos que o Taxista (Jess Liaudin) talvez não seja o vilão que imaginávamos. Ele salva um cachorro de um dono abusivo, poupa a vida de um policial honesto… um cara legal, certo? Então por que ele persegue Chris e Luc com tanta fúria? O que eles estão escondendo?
Esse segredo também vai explicar por que Chris havia desaparecido por dois anos, deixando para trás sua namorada Ludivine (Fanny Valette), que passou a morar com Luc. Desde que Chris reapareceu, o triângulo amoroso virou uma panela de pressão — e enquanto os dois fogem de seu passado, o Taxista está sempre um passo atrás. A trama romântica, porém, nunca entrega o impacto emocional que deveria, pois parece mais um adendo tardio do que parte orgânica da história.
Todos os ingredientes estão ali para um terror pulp de primeira e um drama sobre pecados e retribuição. Os dois primeiros terços do filme são mornos, com exceção de uma briga brutal filmada em plano‑sequência. A trilha de sintetizador de Alex Cortés adiciona ameaça às perseguições, e o contraste neon‑escuridão criado pelo diretor de fotografia Jacques Ballard dá um charme estiloso. Um detalhe esperto é o tique‑taque do taxímetro usado como transição — um lembrete visual da dívida crescente de Chris e Luc.
Mas é no terceiro ato que o filme realmente se revela, abraçando uma moralização pesada e uma reviravolta mitológica inesperada. É o tipo de virada que vai dividir o público — e, para mim, funcionou. Há até algumas sequências de animação bem legais.
“Night Fare” não é um fracasso, nem um clássico absoluto. Mas é forte o suficiente para ser lembrado — e, no mínimo, para fazer você pensar duas vezes antes de dar calote no táxi.












