Franz, 2025 (por Peter P. Douglas)

Franz (2025), longa-metragem de drama histórico, coprodução européia, distribuído pela A2 Filmes, estreia, oficialmente, nos cinemas brasileiros, a partir de 02 de julho de 2026, com classificação indicativa 16 anos e 127 minutos de duração.

“Franz” não é uma cinebiografia convencional — e às vezes parece que a diretora Agnieszka Holland faz questão de demonstrar isso para o espectador. Ela adota um estilo fragmentado, não cronológico, cheio de ousadias formais, e ainda assim entrega o básico da vida de Franz Kafka (1883-1924). O problema é que, apesar de toda a ginástica estética, a essência complexa do autor nunca se materializa totalmente. O filme lista relações — o pai tirânico, a irmã, Max Brod, as mulheres — como quem preenche um formulário, mas raramente transforma isso em algo que realmente nos aproxime do homem.

A diretora usa todo tipo de truque formal para tentar decifrar Kafka (Idan Weiss). Ela viaja décadas com um único corte, recria a infância com o pai autoritário quase afogando o filho para ensiná-lo a nadar, e monta um retrato parcial que parece sempre prestes a dizer algo… mas não diz. Kafka é neurótico, isolado, tuberculoso, mas também funcionário de seguros, amigo dedicado, adepto de exercícios e nadador. O filme menciona tudo isso, mas sem costurar nada.

E então vêm as sequências “satíricas” no Museu Kafka nos tempos atuais, com bonecos, camisetas e tours guiados. Elas pretendem criticar a transformação do autor em produto, mas são tão superficiais e repetitivas que parecem mais um intervalo comercial do que comentário social. São cenas que poderiam ter sido cortadas sem prejuízo — ou melhor, com benefício.

O foco nos relacionamentos românticos também promete mais do que entrega. Felice aparece como uma presença distante, Milena como uma intelectual libertária, mas o filme nunca explica por que Kafka fugia tanto da intimidade. Ele preferia escrever cartas intermináveis a encontros reais — e o filme menciona isso, mas não se arrisca a explorar o motivo. Há acenos à identidade judaica e ateísta, e imagens do início do Holocausto, mas nada que realmente analise como viver na Europa antissemita moldou sua visão. É tudo sugestão, nunca investigação.

Ainda assim, a diretora acerta em algumas sequências. A dramatização de “A Colônia Penal” é brilhante, e o uso da Cidade Velha de Praga — seus prédios barrocos, igrejas góticas, ruas de paralelepípedos — dá ao filme uma atmosfera que quase compensa suas hesitações. Há também momentos surreais, como equipes de cabo de guerra com cabeças de animais, e cortes rápidos de pesadelos kafkianos que funcionam como pequenas agulhadas visuais.

Sim, “Franz” é imperfeito — às vezes irritantemente imperfeito — mas, apesar disso, consegue tocar o espectador de um jeito que muitos filmes mais “redondos” não conseguem. Tem visão, tem alma, tem ambição. E, claro, quem já lê Kafka obsessivamente desde a adolescência tende a ser generoso com qualquer tentativa séria de entendê-lo.

Compartilhe

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *