
Eis uma confissão: até o início deste ano, eu nunca tinha visto “The Protagonists” (1999), o primeiro longa de Luca Guadagnino, mesmo estando cada vez mais fascinado pelo trabalho do diretor. E, claro, eu não estava sozinho: o filme passou por festivais, mas quase não teve lançamento nos cinemas, e Guadagnino mesmo o trata como uma “loucura juvenil”. Ele tinha quase trinta anos, mas fala do filme como se tivesse feito aos quinze, chamando-o de “aquele filme maluco” quando ganhou o Leão de Prata por “Até os Ossos” em 2022.
O filme até recebeu algum reconhecimento em Veneza em 1999 e conquistou admiradores ao longo dos anos, mas o público e a crítica geralmente o consideraram desconcertante, autoindulgente, explorador — ou tudo isso junto, embalado num pacote experimental.
Antes praticamente impossível de encontrar, agora surgiu no MUBI, oferecendo aos cinéfilos curiosos uma rara oportunidade de vivenciar a estreia caótica, provocativa e assumidamente estranha de um diretor que se tornaria um dos cineastas mais intrigantes de sua geração.
E, de fato, pode ser um dos filmes mais estranhos que você já viu. Ele claramente quer ser uma metalinguagem sobre narrativa e factualidade, mas não para por aí. Algumas partes são documentário puro sobre um assassinato. Outras contam a história da produção do próprio filme — ou de outro filme sobre o mesmo assunto, quem sabe. Outras não têm relação nenhuma com nada disso. Algumas partes são horripilantes, outras belas, outras realistas, outras oníricas, outras assustadoras. E algumas são tão mal concebidas que caem, involuntariamente (ou será que não?), na comédia.
É uma mistura de ideias, estilos e técnicas. Depois da primeira vez que assisti, eu sinceramente não sabia se era ótimo ou terrível, quatro estrelas ou uma estrela. Mas só o fato de provocar essa dúvida já significa que vale a pena assistir — mesmo que você acabe dando uma estrela.
Quanto à acusação de que o filme é explorador… bem, claro que é, no sentido de usar tragédia humana para fins artísticos. Porém, considerando a quantidade de documentários de true crime nos streamings e livros de bolso sobre assassinatos nas livrarias, parece injusto apontar esta obra como o vilão da história. Ele não é reverente, mas leva o assunto a sério — e o texto longo no início, lido por Tilda Swinton, deixa claro que o filme quer evitar que a vítima seja esquecida em meio ao fascínio pelo assassino.
O crime real por trás de “The Protagonists” ocorreu em 1994: o assassinato de Mohamed el‑Sayed por Richard Elsey e Jamie Petrolini. No filme, eles viram “Billy” e “Happy”, por recomendação jurídica. Os dois jovens de 19 anos viajaram de Oxford a Londres para matar um desconhecido, acreditando que isso provaria seu valor ao SAS (um órgão do exército britânico). Depois de não encontrarem um alvo (cafetão ou traficante) em King’s Cross, foram a Bayswater, onde esfaquearam el‑Sayed, um funcionário de restaurante de 44 anos. Ambos foram condenados, embora Petrolini tenha tido a pena reduzida por homicídio culposo. O caso teve repercussão breve, mas chamou atenção pela idade dos assassinos e pela frieza do ato.
Na época, os assassinatos dos irmãos Menendez (americanos) ainda estavam frescos na memória, o que deu mais peso ao caso. O Reino Unido adorava acreditar que era imune à violência americana, então qualquer incidente incomum virava alerta nacional.
Mas Guadagnino não está interessado nesse panorama sociológico. Ele explora o crime específico, a vida da vítima, o histórico dos assassinos — mas isso é só parte do filme. “The Protagonists” também é sobre cinema, narrativa, performance, consumo de histórias de crime e muito mais.
A primeira cena mostra dois boxeadores — violência como entretenimento — seguida pela narração de Swinton, que aparece ao longo do filme como uma espécie de guia espiritual. Mas essas ideias não são exploradas imediatamente: a narração vem acompanhada de imagens tão desfocadas que viram abstração. Depois, uma longa canção de Jhelisa sobre imagens igualmente abstratas.
Nos primeiros sete minutos, o filme parece tudo menos um documentário de crime. Mas então muda completamente: fotos estáticas, cores vibrantes, a equipe de filmagem indo para Londres, e finalmente cenas convencionais com Swinton chegando à casa da equipe em Highgate.
E aí surge a dúvida: é Tilda Swinton interpretando Tilda Swinton? Ou interpretando outra pessoa? Os créditos dizem “atriz”, não “ela mesma”. Já a atriz Fabrizia Sacchi aparece como “ela mesma”. Então talvez tenhamos uma atriz que não é Tilda (interpretada por Tilda) e a verdadeira Fabrizia Sacchi trabalhando juntas num filme parecido, mas não exatamente o mesmo filme.
As atividades da equipe se passam em 1998, embora incluam recriações do crime de 1994. Estamos vendo o filme dentro do filme? Ou o filme sobre o filme dentro do filme? Guadagnino não quer que você saiba. Ele quer que você fique tonto.
E é exatamente isso que acontece: muitas cenas podem ser interpretadas de várias maneiras, como diferentes combinações de realidade e performance. Tentar estabelecer fronteiras claras é inútil — e presumir que exista uma explicação coerente talvez seja o maior erro. Sim, tudo isso faz “The Protagonists” parecer árduo — e às vezes é. Mas também é possível ignorar a filosofia e aproveitar o filme num nível mais simples.
Há entrevistas com detetives, patologistas, repórteres, e uma longa entrevista com a viúva de el‑Sayed, que fala sobre o crime e sobre o marido — inclusive sobre sua habilidade de fazer molhos para massa.
As reconstruções são convencionais, mas também há sequências abstratas. O assassinato é filmado de várias maneiras, reforçando a ideia de múltiplas possibilidades. Elementos fantásticos surgem: paletas exageradas, cenários estilizados, luzes de Natal demais, uma figura vampírica ao fundo. Uma das imagens mais marcantes é Swinton ensanguentada posando como el‑Sayed — totalmente irreal, totalmente impactante.
É o trabalho de um jovem diretor querendo explorar tudo ao mesmo tempo. Já dava para ver ali o Guadagnino que viria depois: jovens em mundos fantásticos, performance, ilusão, cortes rápidos, sequências oníricas, sexualidade insinuada.
Nem tudo funciona. Algumas coisas parecem desconectadas. Há cenas que parecem paródias involuntárias. Há momentos que banalizam a realidade. Mas há também imagens assombrosas e poderosas.
Talvez “The Protagonists” seja exatamente isso: trechos de uma estrela e trechos de quatro estrelas. Um filme que aborda autenticidade, artifício, atuação, narrativa — e destrói a quarta parede enquanto constrói outra. Pode não ser ótimo nem terrível — mas talvez esse não seja o ponto. É um vislumbre do ínico da mente de um cineasta singular. E só por isso já vale a experiência.
















