Raw, 2016 (por Peter P. Douglas)

O terror francês sempre teve um cantinho VIP no meu coração — aquele cantinho onde guardo filmes que me traumatizaram, mas que eu recomendo mesmo assim. Então, quando começaram a pipocar os primeiros rumores sobre “Raw” — primeiro longa-metragem da diretora Julia Ducournau — lá em 2016, eu já estava pronto para o impacto. Trailer estiloso, reputação de ser visceral, chocante, perturbador… tudo prometia que eu ia assistí-lo e depois precisar de terapia e um chá de camomila.

Eu sabia vagamente que tinha canibalismo envolvido, mas nada muito específico. Vamos a trama: acompanhamos Justine (Garance Marillier): vegetariana, tímida, caloura de veterinária e prestes a descobrir que a faculdade não é só prova, xerox e crise de identidade — é também trote com sangue e rim de coelho cru servido como se fosse canapé. A irmã dela, extrovertida e barulhenta, já passou por isso e aparentemente sobreviveu, então Justine tenta seguir o fluxo. Má ideia.

Porque é exatamente nesse momento que a vida dela vira um pesadelo gourmet. Uma mordidinha inocente em carne crua e pronto: Justine desperta para um mundo de desejos carnívoros que fariam Hannibal Lecter dizer “calma, querida”. Conforme a história avança, ela vai deixando de ser a adolescente inocente para virar uma mulher mais madura, mais consciente… e com um apetite que definitivamente não está na pirâmide alimentar.

Em muitos sentidos, “Raw” é um coming-of-age — só que com menos metáforas sutis e mais dentes. É sombrio, é estranho, é cheio de tensão familiar, mas não é exatamente o terror que o marketing prometeu. Momentos realmente perturbadores? Tem, mas são poucos. Muito do horror é insinuado, não mostrado. E, sinceramente, depois de tanta propaganda dizendo que esse filme faria gente desmaiar no cinema, eu esperava algo mais… intenso. No fim, achei bem mais leve do que o hype sugeria.

Agora, justiça seja feita: a fotografia é linda, as atuações são ótimas e a estética geral funciona. Mas o ritmo? Ah, o ritmo… arrasta. A trama anda como um zumbi com preguiça. E a parte dos trotes estudantis? Irritante num nível pessoal. Exagerada, irrealista e, acima de tudo, chata. Quando o filme finalmente termina, você fica com aquela sensação de “ué, acabou?”. O clímax simplesmente evapora, e a “grande reviravolta” é tão anunciada que chega sem surpresa nenhuma.

No fim das contas, “Raw” caiu na armadilha clássica dos filmes com alto hype: expectativa lá em cima, entrega… ok. Não é ruim — longe disso. É bom, tem estilo, tem personalidade. Mas tudo sugeria que fosse brilhante, alucinante, espetacular. E não foi. Então fico aqui, levemente decepcionado, mastigando minhas expectativas como Justine mastiga… bom, você sabe!

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