
Lançado em 2016, o livro “The Good Liar”, escrito por Nicholas Searle, logo entrou no radar cinematográfico estadunidense. Eis que três anos depois, Hollywood trouxe sua adaptação às telonas, “A Grande Mentira” (The Good Liar, 2019). Será que ela acerta em cheio?… Não, não é o presente caso!
Helen Mirren — a Helen Mirren, a mulher que encara vilões, rainhas, mafiosos e carros tunados sem piscar — interpretando uma viúva tímida, ingênua e presa fácil para um golpista de aplicativo? Isso soa tão improvável quanto pedir para o Vin Diesel interpretar um bibliotecário tímido. Helen Mirren, enganada? Tá bom.
E é justamente essa reação automática — “isso não faz sentido” — que o filme “A Grande Mentira” usa como isca. A estratégia de marketing é basicamente: “venha ver dois monstros sagrados da atuação contracenando e finja que acredita na premissa”. Afinal, é a primeira vez que Mirren e McKellen aparecem juntos no cinema, e isso só funciona se você já souber o peso que esses dois nomes carregam.
Por isso, a ideia de Mirren cair num golpe amoroso é simplesmente inimaginável. Roy Courtnay (McKellen) conhece Betty (Mirren) num site de namoro para idosos. Ele finge ser um velhinho adorável, mas nós sabemos que ele é um tubarão. Ela parece doce, distraída, vulnerável… mas, por favor, é Helen Mirren. Ela deve ter um plano. Ela precisa ter um plano. Por que mais o diretor Bill Condon escalaria alguém como ela?
E aí passamos boa parte do filme tentando adivinhar qual é a jogada. Isso, em tese, é divertido — filmes de golpistas adoram enganar o público. Mas aqui… bem, aqui a coisa desanda. É aquele momento em que eu deveria dizer: “ah, você acha que sabe o que está acontecendo? Espere só!” — mas não no bom sentido. O filme acredita que está entregando reviravoltas geniais, afiadas, feministas. Na prática, entrega algo tão absurdo que dá vontade de suspirar fundo e pedir um reembolso de tempo.
Quando finalmente chegamos à grande revelação, ela é problemática em vários níveis. O principal trata sobre motivações feministas. É datado e joga no lixo qualquer nuance construída até ali. Para piorar, a história de fundo exige que Mirren tenha certa idade… mas McKellen definitivamente não tem a idade que o roteiro finge que ele tem.
E o filme ainda perde oportunidades incríveis. Por exemplo: Betty apresenta Roy ao neto, Steven (Russell Tovey), que claramente não gosta do novo namorado da avó. Roy tenta convencê-lo de que deveria aceitar a relação porque “pelo menos ele oferece romance à Betty”. E logo se pensa: “não seria maravilhoso se Steven fosse, na verdade, o namorado dela?”. Seria ousado, inesperado e ainda daria um tapinha em diversos clichês do gênero. Mas não. O filme escolhe o caminho mais óbvio possível.
E aí chegamos ao veredito: o filme “A Grande Mentira” é um crime contra o cinema e contra Helen Mirren. Ele a mantém presa, limitada, apagada, esperando o momento de brilhar… que nunca chega. Ela merecia algo melhor, e nós também.















