Vidas Entrelaçadas (por Peter P. Douglas)

Vidas Entrelaçadas (Coutures, 2025), longa-metragem de drama, coprodução franco-estadunidense, distribuído pela Synapse Distribution, estreia, oficialmente, nos cinemas brasileiros, a partir de 16 de abril de 2026, com classificação indicativa 14 anos e 106 minutos de duração.

A diretora parisiense Alice Winocour volta para mais um passeio cinematográfico por sua cidade natal e desta vez nos entrega “Vidas Entrelaçadas”, onde Angelina Jolie interpreta Maxine, uma diretora de filmes de terror que aceita fazer um vídeo promocional para um desfile de moda chiquérrimo enquanto tenta não desmoronar emocionalmente.

Logo na primeira cena, descobrimos o que Maxine está enfrentando graças a um telefonema enigmático que parece ter sido ditado por alguém que queria terminar tudo antes do almoço. Além de brigar com produtores, ela está se divorciando, a relação com a filha está um caos e seu médico americano encontrou “algo preocupante”, que mais tarde vira um diagnóstico de câncer. Ou seja: Maxine está vivendo o pacote completo do drama premium.

Enquanto tenta lidar com tudo isso, sua história cruza com a da modelo Ada (Anyier Anei), uma refugiada sul-sudanesa, e com Angèle (Ella Rumpf), maquiadora e escritora (do que presencia) nas horas vagas — porque, claro, ninguém em Paris tem só um emprego.

Jolie está surpreendentemente vulnerável como Maxine, ecoando suas próprias experiências com o câncer. O roteiro tropeça, mas ela segura tudo com uma boa atuação, quase nos fazendo esquecer de quando interpretou uma espiã que pulava entre prédios. A química com Louis Garrel, que interpreta o cinegrafista e namorado intermitente, funciona bem: eles têm aquela vibe de casal artístico que discute sobre enquadramento e depois sobre quem esqueceu de comprar pão.

A bolha da moda parisiense é retratada com precisão cirúrgica — Paris está linda, claro, porque Paris sempre está linda — e os bastidores mostram o lado nada glamouroso do mundo fashion. Mas nem tudo desfila tão bem.

O conflito solo envolvendo Ada parece ter sido costurado às pressas, com pontos tortos e linha sobrando. Ada funciona melhor (Maxine também) quando está com Angéle, cuja personagem é a única pessoa sensata em um ambiente onde todo mundo parece estar a um passo de um colapso nervoso.

A diretora parece não perceber quais são as melhores partes do próprio filme, e por isso, resolveu incluir uma personagem ucraniana tão subdesenvolvida que parece ter sido esquecida no meio do roteiro. E o que dizer do ato final que traz um acontecimento que lembra uma cena muito famosa da novela global “Laços de Família”.

Curiosamente, um dos melhores momentos finais é uma sequência silenciosa em que a costureira de Garance Millier finaliza o vestido do desfile — uma cena tão boa que faz você pensar: “por que o filme inteiro não foi assim?”.

A trilha sonora gótica de Anna von Hausswolff e Filip Leyman, que toca no clímax, cria uma atmosfera melancólica que combina mais com os filmes de terror de Maxine do que com o mundo da moda. É uma contradição tonal interessante… que o filme não explora, porque já está ocupado demais tentando abraçar 12 temas ao mesmo tempo.

No fim, “Vidas Entrelaçadas” é um drama elegante, mas disperso — cheio de ideias, algumas boas, outras nem tanto, todas desfilando pela tela como se estivessem competindo por atenção. As intenções são ótimas, mas o resultado é mais “coleção cápsula experimental” do que “alta costura”.

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