
A ideia básica do filme é a seguinte: um grupo de crianças do ensino fundamental no Japão, em meados da década de 80, está prestes a ir embora, pois um tufão gigantesco está a caminho e atingirá o país em breve. Como de costume, a escola fechará até que o perigo passe. As crianças se reúnem para ir, mas, conforme o dia da chegada do tufão se aproxima, uma série de eventos conspira para prender um grupo de estudantes na escola: Michiko (Yuka Onishi), Ken (Shigeru Benibayashi), Akira (Toshiyuki Matsunaga), Kyoichi (Yuichi Mikami), Rie (Youki Kudoh) e Midori (Yuriko Fuchizaki). Junto com seu professor, Sr. Umemiya (Tomokazu Miura).
Em “Typhoon Club” (Taifû Kurabu, 1985), o diretor Shinji Sômai aborda o tema “adolescentes japoneses existencialmente confusos”, com uma seriedade tão intensa que parece que ele filmou o equivalente cinematográfico de um suspiro profundo. O filme é superaclamado no Japão, ganhou prêmios e está na lista dos 100 Maiores Filmes Japoneses da Kinema Jumpo. Se eu fosse fazer uma lista dessas… bom, digamos que este aqui provavelmente ficaria na pilha “talvez um dia eu entenda completamente”, visto que muitos dos temas abordados conversam mais com a cultura asiática do que com a universal.
Grande parte da história se passa numa escola secundária nos arredores de Tóquio, onde a atmosfera é tão animada quanto uma segunda-feira chuvosa. Acompanhamos um grupo de estudantes que parecem ser amigos simplesmente porque nunca tiveram a chance de conhecer outras pessoas. Eles convivem, mas não se entendem; são próximos, mas emocionalmente distantes; e todos carregam problemas que claramente não têm idade para processar, mas sabem que algo está errado — tipo aquele sentimento de “não sei o que está acontecendo, mas não gosto”.
Pais? Não existem. Autoridade? Sumiu. O único professor que aparece é tão eficaz quanto um guarda-chuva furado: não controla a sala, não controla a própria vida e, sinceramente, parece que só está ali porque alguém precisava assinar o ponto.
A escola é um caos silencioso. Um aluno quase se afoga numa brincadeira e ninguém pensa em pedir ajuda. Uma garota sofre um ataque sério com ácido (deixando uma imensa cicatriz) e o agressor continua circulando como se nada tivesse acontecido. Em outra oportunidade, ele tenta violentá-la, porém desmaia ao ver a cicatriz… e ninguém pergunta nada. Nem as amigas. Nem um “amiga, por que sua blusa está rasgada?”. Nada. É o equivalente emocional de um grupo de adolescentes vivendo dentro de um aquário: todo mundo vê tudo, mas ninguém reage.
O filme nos dá fragmentos das vidas deles — tão fragmentados que você passa metade do tempo tentando lembrar quem é quem. Quem são as duas garotas envolvidas em um caso lésbico? Qual delas se masturbou na cama da mãe? Quem é o rapaz que tem TOC e fica repetindo “estou em casa”, parado na frente da porta como se fosse um NPC travado? Leva um tempo para juntar as peças.
Aí chega o tufão. Eles ficam presos na escola, os pais continuam misteriosamente ausentes e a sensação de mal-estar que permeava o filme inteiro finalmente explode. O clima fica tão estranho que, as inibições caem e, todos acabam dançando de roupa íntima na chuva como se estivessem num videoclipe conceitual. E o ato final… bom, é chocante, inesperado e tão sem sentido que você fica olhando para a tela pensando: “pera, isso realmente aconteceu?”.
Apesar de conter violência, sexo lésbico, estupro e masturbação, não se trata de um filme exploration, longe disso. Sômai filma tudo com uma distância quase clínica, como se fosse um observador neutro que se recusa a interferir.
No fim, “Typhoon Club” é um filme a ser digerido em pequenas doses. Alguns vão detestar, outros amar — mas a certeza é que se trata de uma obra desconfortável, provavelmente porque os personagens são tão jovens e tão perdidos que você quer entrar na tela e dizer “gente, terapia existe”. Mas talvez essa incerteza seja justamente o ponto.
















