Yõg Ãtak: Meu Pai, Kaiowá (por Peter P. Douglas)

Yõg Ãtak: Meu Pai, Kaiowá (2024), longa-metragem documental nacional, distribuído pela Embaúba Filmes, estreia, oficialmente, nos cinemas brasileiros, a partir do dia 10 de junho de 2025, com classificação indicativa Livre e 94 minutos de duração.

Trata-se de um filme que não se encaixa facilmente em categorias convencionais. Ele não se apresenta como denúncia, nem como homenagem, nem como registro histórico — embora seja tudo isso ao mesmo tempo. O que os diretores Sueli Maxakali, Isael Maxakali, Roberto Romero e Luisa Lanna constroem aqui é uma obra profundamente pessoal, mas que atinge coletivamente. É um gesto de reencontro, de escuta e de resistência.

A narrativa parte da busca de Sueli por seu pai, Luiz Kaiowá, de quem foi separada ainda bebê durante a ditadura militar. O filme acompanha esse percurso, mas não se limita a ele. Ao longo dos 94 minutos, o que vemos é uma tentativa de reconstruir vínculos rompidos por políticas de Estado que violentaram povos indígenas, deslocaram famílias e apagaram histórias. O reencontro entre pai e filha é o ponto de chegada, mas o filme se interessa mais pelo caminho — pelas pessoas que ajudam, pelas memórias que emergem, pelas línguas que são faladas e cantadas.

A linguagem do filme é construída com calma. Os planos são longos, a câmera muitas vezes estática, e há uma recusa clara em acelerar o tempo. Isso não é por limitação técnica — é uma escolha estética e política. O ritmo do filme respeita o tempo dos Maxakali e dos Kaiowá, suas formas de falar, de se mover, de se relacionar com o espaço. A montagem não tenta organizar tudo de forma linear ou explicativa. Ao contrário, ela permite que o espectador entre em contato com uma lógica diferente, onde o silêncio e a repetição têm valor.

Há momentos em que o filme parece quase documental no sentido mais cru, com imagens captadas por celular, sem preocupação com enquadramento ou iluminação. Mas isso não significa descuido. É uma forma de afirmar que o cinema pode ser feito com o que se tem, e que o importante é o que se diz — ou o que se mostra, mesmo sem palavras. A presença das línguas indígenas (maxakali, kaiowá, guarani) é um dos aspectos mais fortes da obra. Elas não são traduzidas o tempo todo, e isso é proposital: o filme não se curva à lógica de tornar tudo acessível ao público branco. Ele convida à escuta, não à decodificação.

O reencontro com Luiz Kaiowá, quando acontece, é simples e direto. Não há dramatização, não há catarse. Sueli o apresenta à família, ele fala pouco, mas o suficiente. O que importa é que estão ali, juntos, depois de décadas. E que esse momento foi construído por meio do cinema — não como espetáculo, mas como ferramenta de aproximação.

Yõg Ãtak: Meu Pai, Kaiowá é um filme que exige atenção e paciência. Ele não entrega respostas prontas, nem se preocupa em ser “bonito” ou “emocionante” nos moldes tradicionais. Mas ele tem força, tem presença, e tem uma urgência que vem da vida real. É um filme feito por indígenas, sobre indígenas, e para todos que estejam dispostos a ouvir. E isso, por si só, já o torna essencial.

Compartilhe