Vingadora (por Peter P. Douglas)

Vingadora (Protector, 2025), longa-metragem de ação e drama, distribuído pela Imagem Filmes, estreia, oficialmente, nos cinemas brasileiros, a partir de 26 de março de 2026, com classificação indicativa 16 anos e 92 minutos de duração.

A sinopse já entrega tudo: Nikki Halsted (Milla Jovovich), uma veterana de guerra que claramente não ganhou férias suficientes, tenta viver uma vida pacífica com a filha (Isabel Myers)… até que, claro, a menina é sequestrada por uma quadrilha de tráfico humano. Porque nada diz “vida tranquila” como ser arrastado para o submundo do crime em 0,3 segundos. A partir daí, Nikki vira uma mistura de John Wick, Rambo e mãe que perdeu a paciência — e decide resolver tudo com o treinamento militar que supostamente tinha deixado para trás. Resultado: polícia atrás dela, exército atrás dela, criminosos atrás dela… e nós atrás de um pouco de coerência.

Milla Jovovich, como sempre, aparece com aquela aura de “eu já matei zumbis suficientes para ter medo de você”. Ela é durona, eficiente e faz parecer que destruir criminosos é só mais um item da lista de tarefas. O problema é que o filme tenta ser realista, mas acaba parecendo um episódio perdido de “Resident Evil” sem zumbis e sem graça. É um thriller “pé no chão”, mas o chão está tão escorregadio de falta de lógica que a gente cai junto.

O filme começa com um textão na tela denunciando o tráfico humano — porque nada prepara melhor o público para um filme de ação do que um aviso digno de documentário da BBC. Depois vemos Nikki servindo no exterior, perdendo aniversários da filha e acumulando culpa suficiente para alimentar três temporadas de drama familiar. Quando finalmente volta para casa, ela e Chloe brigam, Chloe foge, é drogada e sequestrada… e pronto, começa a contagem regressiva de 72 horas. Literalmente. O filme coloca um cronômetro na tela, como se dissesse: “Olha, não temos roteiro, mas temos números.”

E aí vem a parte divertida: o filme pula 30 horas da contagem sem explicar absolutamente nada. Nikki simplesmente aparece com informações que nem o FBI conseguiria com um milhão de dólares e um hacker adolescente. Mas tudo bem — o importante é que ela está no rastro do Sindicato, uma quadrilha com nomes tão criativos quanto “O Presidente” (Gabriel Sloyer), “O Açougueiro” (Manny Montana) e “Sr. Sullivan” (Don Harvey). Parece elenco de novela das oito escrita às pressas.

A partir daí, Milla Jovovich passa o filme inteiro espancando, esfaqueando, atropelando e torturando bandidos como se estivesse tentando bater o próprio recorde de violência por minuto. Ela luta em casas, galpões, carros, corredores, complexos… e provavelmente lutaria até no caixa eletrônico se alguém olhasse torto. Enquanto isso, o resto do elenco — o capitão de polícia Michael (DB Sweeney), os detetives Blake (Michael Stahl-David) e Jane (Lydia Hull), o ex-comandante militar de Nikki, o coronel Joseph Lavelle (Matthew Modine) — aparece em cenas separadas, discutindo como detê-la — porque ninguém nesse filme consegue estar no mesmo ambiente que Milla sem virar estatística.

Mas algo sempre parece… estranho. As cenas de ação são boas, bem coreografadas e até empolgantes, mas tudo ao redor delas parece ter sido escrito por alguém que nunca ouviu um ser humano falar. Os diálogos são tão artificiais que você quase espera que um deles diga “erro 404: emoção não encontrada”.

O diretor Adrian Grunberg já trabalhou com Mel Gibson, Stallone e até um tubarão gigante em “O Demônio dos Mares (The Black Demon, 2023), mas aqui parece que ele decidiu tirar férias. O roteirista Bong-Seeb Munby tenta copiar “Busca Implacável”, mas esquece de copiar todas as partes boas. O resultado é um filme que parece feito para ser facilmente dublado em 47 idiomas — porque ninguém diz nada que valha a pena manter no original.

E sim, havia potencial ilimitado. A trilha sonora é boa, Milla Jovovich faz o que pode, o tema é sério e o plot twist vai pegar muita gente de surpresa. Mas “Vingadora” parece uma fotocópia de uma fotocópia de uma fotocópia de “Busca Implacável”, só que sem Liam Neeson e com menos roteiro. Até dá saudade de alguns filmes de Paul W.S. Anderson — e isso é algo que muita gente nunca imaginou que diria em voz alta.

No fim, “Vingadora” é aquele tipo de filme que você assiste olhando para o celular e só levanta a cabeça quando alguém leva um soco. Se isso te satisfaz, vá em frente. Para todo mundo que espera algo mais… melhor correr. Não de traficantes, mas do próprio filme.

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