
“Vidas Passadas” (Past Lives, 2023), drama romântico que é uma ferida aberta contada com delicadeza. A diretora Celine Song não tenta impressionar com grandes reviravoltas ou cenas dramáticas — ela constrói tudo com silêncio, com olhares, com o tempo que passa e deixa marcas.
A história acompanha Nora e Hae Sung, dois amigos de infância que se separam quando ela emigra da Coreia do Sul para o Canadá. Anos depois, eles se reencontram, primeiro virtualmente, depois pessoalmente, e o que está em jogo não é só o amor que poderia ter sido, mas tudo o que foi deixado para trás.
O filme se apoia no conceito coreano de “in-yun”, que sugere que pessoas que se cruzam nesta vida já estiveram conectadas em vidas passadas. Mas Song não usa isso como explicação mágica — é mais como uma camada de melancolia que paira sobre os encontros e desencontros.
Nora construiu uma vida nova, casou-se com Arthur, um escritor americano que entende que o reencontro com Hae Sung não é uma ameaça, mas uma parte da história dela que nunca foi resolvida. E isso já diz muito sobre o tom do filme: não há vilões, não há mocinhos, só pessoas tentando lidar com o que sentem.
A direção é precisa. Song sabe exatamente quando deixar a câmera parada, quando deixar o silêncio falar. A cena final, com Nora e Hae Sung na calçada esperando o carro que vai levá-lo embora, é um exemplo disso. Não há música, não há palavras — só o peso do que não foi. E quando ela volta para casa e chora nos braços do marido, não é só por Hae Sung, é por tudo que ficou entre eles, por tudo que ela teve que deixar para se tornar quem é.
Greta Lee e Teo Yoo entregam atuações contidas, mas cheias de nuance. Eles não precisam dizer que estão sofrendo — a forma como se olham, como hesitam, como caminham lado a lado sem se tocar, já conta tudo. A fotografia reforça essa distância: eles estão sempre próximos, mas separados por alguma linha invisível. E a trilha sonora, quando aparece, é discreta, quase como se estivesse pedindo licença.
“Vidas Passadas” não é sobre escolher entre dois amores. É sobre aceitar que algumas conexões não têm lugar no presente, mas continuam existindo.










