
Uma Bela Vida (Le Dernier Souffle AKA Last Breath, 2024), longa-metragem dramático francês, distribuído pela Filmes do Estação, estreia, oficialmente, nos cinemas brasileiros, a partir do dia 17 de julho de 2025, com classificação indicativa 18 anos e 110 minutos de duração.
Costa-Gavras sempre foi um cineasta comprometido com a verdade, uma afirmação que se encontra tanto na trajetória de sua obra quanto na fala de um dos protagonistas de seu novo filme. Em sua adaptação do livro “Le Dernier Souffle: Accompagner la Fin de Vie”, de Claude Grange e Régis Debray, ele propõe uma reflexão contundente sobre o fim da vida, abordando uma realidade desumana que exige debate para tornar o inaceitável minimamente suportável. Diferente de seus trabalhos anteriores focados em temas políticos e sociais com apelo coletivo, esta narrativa dirige o olhar para algo profundamente íntimo e universal: o momento da morte.
A morte, por mais presente que esteja na existência humana, permanece como tabu especialmente nas sociedades ocidentais, onde o envelhecimento populacional avança aceleradamente. O filme enfatiza como lidamos mal com essa etapa, denunciando o isolamento dos idosos em instituições que pouco consideram o afeto ou a dignidade individual. Um médico senegalês, em sua breve aparição, questiona sem rodeios: “O que vocês fazem com os seus idosos? Vocês os encerram em caixas com outros idosos que eles não conhecem”. Essa crítica embasa a postura do Dr. Augustin Masset, vivido por Kad Merad, que lidera uma unidade de cuidados paliativos guiada pelo respeito à pessoa em transição, enfrentando de forma sensível e corajosa o preconceito médico contra o fim da vida.
O encontro de Masset com Fabrice Toussaint, um escritor filosófico interpretado por Denis Podalydès, cuja descoberta de uma mancha cerebral dá início à sua jornada terminal, proporciona ao médico a chance de compartilhar com profundidade seu saber humanista: como ajudar uma pessoa viva a morrer com dignidade. A troca entre os dois é marcada por sinceridade e inquietações metafísicas, como o questionamento “Entregar o fantasma, mas para quem?”, que guia o tom da narrativa.
A construção do filme mistura elementos da experiência médica com reflexões existenciais, alternando entre flashbacks, consultas ao lado do leito e cenas observacionais com uma estética próxima do documentário. Ao mesmo tempo, Costa-Gavras utiliza a ficção como ferramenta para evitar o excesso de sentimentalismo e preservar a dignidade dos personagens. A representação do sofrimento — físico e emocional — nunca recai sobre o sensacionalismo, mas permanece real.
As interpretações de Merad e Podalydès sustentam o filme com delicadeza e humanidade, apoiadas por um elenco secundário vigoroso, com nomes como Charlotte Rampling, Karin Viard, Hiam Abbas e Ángela Molina. Cada personagem contribui para a atmosfera de acolhimento e questionamento que o filme propõe. A obra é concebida como uma narrativa acessível, destinada a alcançar um público amplo e provocar uma discussão madura sobre a autonomia do indivíduo diante da finitude.
Costa-Gavras reafirma que existe vida mesmo diante da morte — e que, ao reconhecê-la como parte da existência, podemos transformar nosso olhar sobre ela. O filme oferece um convite para escutar, aprender e respeitar, sem esconder a dor, mas sem deixar que ela obscureça o afeto, a lucidez e o direito à escolha.












