
Um Zé Ninguém Contra Putin (Mr. Nobody Against Putin, 2025), longa-metragem documental dinamarquês, estreia, oficialmente, no streaming Filmelier+, a partir de 26 de março de 2026, com 90 minutos de duração.
A obra é aquele tipo de documentário que você assiste com a sensação constante de que, se alguém espirrar no lugar errado, aparece um agente do governo perguntando “e essa liberdade de expressão aí, hein?”. Dirigido por David Borenstein e pelo professor russo Pavel “Pasha” Talankin — que filmou tudo escondido, como se estivesse gravando um episódio proibido de Escola do Terror — o filme oferece um passeio nada turístico pelo sistema educacional russo, agora transformado em fábrica de patriotas prontos para repetir slogans como papagaios traumatizados.
Talankin, coitado, é coordenador de eventos e cinegrafista numa escola de Karabash, uma cidade tão poluída que respirar lá já é propaganda negativa suficiente. Mesmo assim, o Kremlin achou que precisava de mais: decidiu transformar as escolas em centros de treinamento ideológico, com direito a bandeiras por todos os lados, discursos inflamados e aulas de história reescritas com a sutileza de um tanque de guerra.
O professor, que claramente tem mais bom senso do que o governo gostaria, deixa claro que tudo aquilo é um erro moral gigantesco. Segundo ele, a Rússia chegou a um ponto em que os “grupos dominantes” têm tanto poder que conseguem moldar a mente das crianças como quem molda gelatina — só que com menos sabor e mais ameaça velada. Quem não é patriota é “parasita”. Quem questiona é “inimigo”. Quem pensa… bom, pensar não está no currículo.
O documentário mostra como a doutrinação funciona: professores lendo textos prontos do Ministério da Educação, alunos respondendo com frases coreografadas (alguns até colando debaixo da carteira, porque até para repetir propaganda é preciso colar), e aulas explicando que França e Reino Unido vivem no caos absoluto porque dependem de combustíveis fósseis russos. É quase fofo ver o esforço — quase.
E, num toque de humor negro involuntário, o Kremlin exige que tudo seja filmado e enviado para um banco de dados central. Talankin reclama que passa mais tempo fazendo upload de vídeos do que ensinando. Aparentemente, na Rússia moderna, até a propaganda tem burocracia.
O professor também nos leva para um tour pela cidade: manifestações pró-guerra com “apoio massivo” (ou com pessoas que só querem voltar para casa vivas), uma biblioteca municipal que virou depósito de panfletos patrióticos e conversas com colegas que admitem que tudo é uma farsa — mas que preferem continuar fingindo, porque contas não se pagam sozinhas.
Os momentos mais reveladores são os pequenos: a aluna que brinca dizendo “pisca duas vezes se estiver mentindo”, arrancando risadas nervosas da turma; os professores que confessam saber que tudo é absurdo, mas seguem o roteiro para não perder o emprego; e a propaganda em si, tão mal feita que parece saída de um estágio de marketing do inferno.
O filme lembra o fim da União Soviética, quando ninguém acreditava mais na propaganda, mas todo mundo continuava fingindo porque não havia alternativa. A diferença é que agora tudo é gravado em HD.
O momento mais pesado chega no final, quando Talankin reproduz o áudio do funeral de um jovem morto na guerra. Ele não filma — por respeito — mas os gritos da mãe são suficientes para desmontar qualquer discurso patriótico. É o tipo de cena que lembra que, por trás de toda propaganda, existe gente real pagando o preço.
Talankin surge como alguém decente tentando sobreviver num sistema que não quer pessoas decentes. As crianças são inteligentes, engraçadas e claramente merecem mais do que slogans. E a mãe que perdeu o filho poderia ser qualquer mãe, em qualquer país.
No fim, “Um Zé Ninguém Contra Putin” talvez seja um título modesto demais. O que o filme realmente mostra é que ninguém deveria estar contra Talankin — e que todos deveriam estar muito preocupados com o que está acontecendo nas escolas russas.
















