The Surrender (por Peter P. Douglas)

            É correto afirmar que “The Surrender” (2025), com seus 96 minutos de duração, se junta ao crescente acervo de produções de terror que, sob a superfície, são na verdade intensos dramas familiares. Assinando seu primeiro longa-metragem como roteirista e diretora, Julia Max, entrega uma obra que mergulha em relações desgastadas, mágoas antigas e rituais que desafiam a lógica — e, sobretudo, o afeto.

            A narrativa acompanha a crise de uma família, uma vez que consumido pelo câncer, Robert (Vaughn Armstrong), o patriarca, agoniza em uma cama. A filha adulta, Megan (Colby Minifie), retorna à casa que nasceu e encontra a mãe, Barbara (Kate Burton), em um estado emocional confuso, aparentemente tentando lidar com a iminente partida do marido. Porém, conforme Megan readquire familiaridade com o ambiente doméstico, ela começa a notar artefatos incomuns espalhados ao redor do leito de Robert. Ao confrontar Barbara, a reação é imediata e intensa — a mãe recoloca tudo em seus lugares com urgência obsessiva, como se o destino dependesse disso.

            É o vínculo entre Megan e Barbara, forjado no trauma e moldado pela fuga da filha — que escapou não apenas do lar, mas da figura de um pai autoritário (vivido em flashbacks por Pete Ploszek) e de uma mãe submissa (na juventude interpretada por Chelsea Alden, com Alaina Pollack como Megan adolescente) — que serve como eixo emocional do filme.

            Somente após a morte de Robert é que o verdadeiro plano de Barbara vem à tona: ressuscitá-lo por meio de um ritual complexo e doloroso, guiado por um estranho enigmático (Neil Sandilands). Para que o processo funcione, uma série de “rendições” precisam ser realizadas pelas mulheres da família — sacrifícios materiais e espirituais que exigem tudo, até mesmo a verdade. Barbara manipula Megan com mentiras cada vez mais elaboradas para envolvê-la no rito, revelando uma face egoísta e desesperada.

            A tensão acumulada entre mãe e filha reacende traumas mal cicatrizados, e o ritual, com seus riscos imprevisíveis, ameaça prender ambas em um plano espiritual sombrio e permanente caso qualquer detalhe falhe. Com recursos modestos, Julia Max constrói uma atmosfera angustiante e visualmente inquietante. As atuações de Minifie e Burton são o cerne da obra — suas expressões, silêncios e confrontos sustentam o peso dramático que torna o filme tão envolvente.

            Embora não mergulhe completamente no horror convencional, o filme insinua seu terror nas escolhas humanas e nas consequências emocionais. Em meio a pequenos sustos e momentos viscerais, o verdadeiro impacto reside na conexão crua entre mãe e filha.

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