The Day After: O Dia Seguinte (por Peter P. Douglas)

            A ameaça de um ataque nuclear tem sido uma presença constante ao longo dos últimos 70 anos. A tecnologia continua avançando e o inimigo em potencial pode mudar ao longo do tempo, mas, seja quem forem os supostos destruidores – japoneses, norte-coreanos, americanos, cubanos, iranianos ou, no caso de “O Dia Seguinte” (The Day After, 1983), os russos – grande parte do mundo vive diariamente com o sentimento constante de que, a qualquer momento, um país irritado poderia simplesmente pressionar um botão e acabar com tudo.

            Trata-se de um ousado e ambicioso filme de TV (feito pelo Canal ABC americano), que buscou convencer seu público de que a guerra nuclear jamais deveria ser a solução final (algo que, convenhamos, nem precisaria ser dito, mas algumas pessoas podem ser um tanto obtusas). A produção retrata a preparação, o impacto e as consequências de um ataque nuclear fictício em Kansas City.

            Curioso para saber como as coisas acontecem? Aqui está o resumo: a Rússia fica incomodada com a presença de tropas americanas em Berlim Ocidental (sim, na época em que o Muro de Berlim ainda existia, lembra?), e decide enviar suas tropas para a Alemanha Oriental como forma de pressionar os Estados Unidos a recuarem. Os americanos, por sua vez, avisam à Rússia para não se meter, mas a tensão escala quando as tropas da Alemanha Oriental perdem a paciência. Em seguida, a Rússia bloqueia Berlim Ocidental. Diante disso, Os Estados Unidos dizem à Rússia que se ela não recuar, considerará isso um ato de guerra. Porém, a situação se agrava quando a OTAN intervém e as tropas russas passam a atacá-los, o que leva os americanos a ameaçar com uma resposta nuclear.

            Conforme essa história fictícia é contada – geralmente através de transmissões de TV e rádio – somos apresentados a um grupo de moradores do Kansas, cada um vivendo sua vida sem ter ideia do que está prestes a acontecer. Entre eles está a filha de um fazendeiro, pronta para se casar no dia seguinte; um médico, ocupado se preparando para dar uma palestra a um grupo de estudantes no hospital da Universidade do Kansas; e Steve Guttenberg, no papel de Steven (uma escolha bem criativa, sem dúvida), um estudante de medicina tentando encontrar o caminho de volta para casa.

            Quando a bomba finalmente explode (o que acontece por volta dos 40 minutos deste filme de pouco mais de duas horas), os efeitos especiais são surpreendentemente modestos para uma produção de TV dos anos 80. Imagens de arquivo de explosões nucleares se misturam com cenas pouco convincentes de nuvens de cogumelo artificial e tomadas com efeitos de raio-X sobrepostos, projetados para sugerir que a radiação estava mostrando esqueletos humanos. Confesso que não passei por muitas explosões nucleares na minha vida, mas imagino que seria reduzido a pó antes que alguém tivesse a chance de admirar minha caixa torácica.

            O rescaldo do impacto pós-apocalíptico é retratado de forma bem mais convincente. Os cineastas trabalharam em parceria com a cidade de Lawrence, no Kansas, que permitiu, de forma voluntária, que suas ruas fossem transformadas em cenários repletos de janelas quebradas, carros queimados e virados ao longo de algumas semanas. O resultado é um ambiente devastado, que, embora um tanto discreto (com uma mensagem final esclarecendo que a destruição real seria muito mais intensa), ainda carrega um tom profundamente melancólico e perturbador.

            Curiosamente, quando o filme foi transmitido originalmente na TV nos Estados Unidos, nenhum patrocinador adquiriu espaço comercial para as cenas que sucedem à explosão da bomba. Isso resultou na última hora do longa sendo exibida sem intervalos comerciais — ainda bem, porque isso realmente teria estragado o clima para quem estava assistindo na época.

            Os efeitos de maquiagem são, por vezes, inquietantes, exibindo perda de cabelo e carne carbonizada. Detalhes como uma vaca morta ou um corpo queimado servem como toques grotescos.

            O filme, ocasionalmente explora críticas sociais. Em determinado momento, o hospital do campus universitário enfrenta a escassez de pessoal e suprimentos, cogitando a controversa decisão de fechar suas portas para novos pacientes. Quando a ajuda finalmente chega, apenas uma parte dos recursos é distribuída às multidões famintas. A justificativa dos trabalhadores humanitários — de que precisam seguir para a próxima cidade e oferecer suporte lá também — provoca revoltas entre os necessitados. Em outra cena, membros da população são executados sem qualquer julgamento, destacando o caos e a perda de humanidade em meio à devastação.

            Sem dúvida, é uma abordagem sombria, mas não necessária, funcionando mais como um recurso para manter o interesse do público. O verdadeiro foco está na devastação causada pelas bombas e em como ela impacta tanto o ambiente quanto as pessoas comuns que conhecemos anteriormente na história.

            O filme faz questão de evitar apontar quem atirou primeiro. O único fato revelado com clareza é que ambos os lados optam por agir, e, através de relatos pelo rádio, somos informados de que Moscou também enfrenta uma devastação semelhante. Este não é um filme que pinta os Estados Unidos como heróis e a Rússia como vilões lançando bombas. Pelo contrário, a narrativa apresenta a bomba nuclear como o verdadeiro inimigo e a raça humana, independentemente de sua nacionalidade, como a vítima universal. Por isso, a obra permanece relevante, impactante e definitivamente merece ser vista.

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