
Stella – Vítima e Culpada (Stella – Ein Leben, 2023), longa-metragem dramático, coprodução Alemanha, Áustria e Suíça, distribuído pela Mares Filmes, estreia, oficialmente, nos cinemas brasileiros, a partir do dia 19 de junho de 2025, com classificação indicativa 16 anos e 121 minutos de duração.
O mais novo filme de Kilian Riedhof mergulha em uma investigação minuciosa sobre a vida conturbada de Stella Goldschlag, uma jovem judia berlinense que, na tentativa de salvar a si mesma e sua família durante o regime nazista, acabou denunciando centenas de judeus — muitos deles seus próprios amigos. Essa figura ambígua, marcada por cachos dourados, um olhar quase infantil e um narcisismo inquietante, foi o motor que impulsionou o diretor a construir um retrato intenso e provocador.
O filme – estrelado pela consagrada atriz Paula Beer, que dá vida a Stella – resgata a complexidade dessa personagem histórica, amplamente lembrada como traidora e manipuladora. Apesar da crueldade de suas ações, o roteiro escancara o contexto extremo e os abusos que Stella enfrentou, lançando luz sobre um dilema moral profundo: até onde pode ir alguém encurralado pela própria sobrevivência? Entre vítima e algoz, femme fatale e jovem comum, Stella se revela uma figura densa e fascinante — e Riedhof evita maniqueísmos ao compô-la, resultando em um drama histórico de peso, fiel às fontes e emocionalmente contundente.
A força do filme, porém, não está apenas na reconstrução do passado. Ao destacar o egocentrismo como traço dominante da personagem, Riedhof insere um olhar atual à narrativa. Apesar de ambientada na Segunda Guerra Mundial, a obstinação de Stella em atender apenas aos próprios desejos e impulsos ecoa os dilemas morais do presente — onde o individualismo, cada vez mais acentuado, parece justificar atitudes extremas em nome da autopreservação. É como se Stella fosse reflexo de uma sociedade atual em que o coletivo cede espaço a egos isolados, em disputa por um ideal ilusório de vitória.
Outro ponto perturbador — e eficaz — do filme está na maneira como enfatiza a banalidade de Stella: ela poderia ser qualquer jovem da sua época. Essa “normalidade” amplifica o desconforto diante de seus atos e convida o público a refletir: que escolhas faríamos se estivéssemos em seu lugar? Assim, o longa levanta questões dolorosamente relevantes sobre o limite entre ética e autoproteção.
Ao redor do tema central da culpa, a narrativa constrói uma personagem que se apega com firmeza às verdades que inventou, numa tentativa de não se reconhecer como o monstro que outros enxergam. “Stella – Culpada e Vítima”, com ritmo cadenciado e apelo estético envolvente, entrega uma obra de impacto — cuja beleza aparente esconde uma violência crua, tão complexa quanto sua protagonista.









