Socorro! (por Casal Doug Kelly)

Socorro! (Send Help, 2025), longa-metragem estadunidense de terror e comédia, distribuído pela 20th Century Studios, estreia, oficialmente, nos cinemas brasileiros, a partir de 29 de janeiro de 2026, com classificação indicativa 14 anos e 113 minutos de duração, dirigido por Sam Raimi.

Apesar de não acertar em todas as suas ambições, “Socorro!” apresenta momentos suficientemente interessantes que justificam assisti-lo ao menos uma vez. Para deixar claro por que o filme não funciona como deveria, é inevitável mencionar elementos importantes da segunda metade da história. Quem prefere evitar qualquer tipo de spoiler — inclusive aqueles já mostrados no próprio trailer — deveria ver o filme antes de continuar.

Em um primeiro momento, há um vislumbre de um grande filme, contudo essa sugestão logo é enterrada. O problema é que o roteiro, tímido e acomodado, insiste em seguir soluções fáceis e pouco criativas, desperdiçando uma premissa que tinha potencial para algo muito mais ousado. O resultado é uma obra irregular, que só se mantém de pé graças à presença de Rachel McAdams. O filme pertence a ela, e sua atuação é ótima.

A primeira metade do filme funciona muito bem. Pega-se o clichê da comédia romântica de escritório, e vira tudo ao avesso. Um encontro se transforma em pura antipatia e, de repente, os dois protagonistas são jogados em uma situação que lembra “Náufrago” (2000) misturado com “O Senhor das Moscas” (1990).

McAdams interpreta Linda Liddle, uma funcionária tímida, porém dedicada, que sofre um bullying cruel e injustificado de todos no escritório. O novo CEO, Brad (Dylan O’Brien), rejeita sua promoção porque Linda não é atraente o suficiente para ele. Tudo e todos parecem conspirar contra ela. É uma situação desencorajadora, como a vida costuma ser para muitos. Em poucos minutos, já estamos do lado de Linda. Ao que tudo indica, ela é uma boa pessoa. Tudo o que ela quer é reconhecimento pelo seu trabalho e que alguém além do seu pássaro a acompanhe, para assistir seu reality show favorito sobre sobrevivência, à noite.

Quando Brad oferece a Linda uma viagem de trabalho quase obrigatória para a Tailândia para “provar seu valor”, Linda aceita a contragosto. Eles embarcam em um avião particular com um grupo de outros colegas e partem com a intenção de que Linda trabalhe enquanto o resto se divirta. Durante o voo, Brad e os outros descobrem a fita de audição de Linda para o programa de sobrevivência na selva e zombam dela.

Então, uma tempestade repentina despedaça o avião, matando todos (em uma cena divertidíssima), exceto Brad e Linda, que acordam em uma ilha deserta, em algum lugar muito distante da rota de voo estabelecida. Brad está ferido e completamente perdido, enquanto Linda se sente mais viva do que nunca. De uma forma horrível, isso é tudo o que ela sempre sonhou.

Brad não demora a perceber que está em apuros. Linda abandona sua postura tímida e não tem o menor interesse em retornar à antiga dinâmica do escritório. Quando Brad tenta intimidá-la para que se submeta, Linda, o lembra de quem está no comando.

E ainda assim, estamos do lado de Linda. Até que, de repente, deixamos de estar.

Se você viu os trailers de “Socorro!”, já sabe o básico. Linda não quer sair da ilha. Por que ela sairia? Então a história muda da espera pelo resgate para uma luta pela sobrevivência. Uma espécie de cenário à la Senhor das Moscas, que o filme referencia de algumas maneiras nada sutis.

Antes que você perceba, o filme já não está mais do lado de Linda. A narrativa transita gradualmente, e de repente, o roteiro insinua que Linda é perigosa e claramente desequilibrada, e então busca maneiras cada vez mais rebuscadas de reforçar essa ideia. Há até mesmo uma sugestão de que esta não é a primeira vez que ela faz algo tão drástico.

Você poderia interpretá-lo como uma tentativa de subverter uma subversão, mas o filme realmente não está à altura da tarefa. Em vez disso, ele se desvia desajeitadamente para o território tedioso de alguns filmes de terror, que tentam conciliar duas coisas: uma celebração pop do poder feminino e uma piada de mau gosto.

Mas antes dessa reviravolta, o filme chega a ser melhor. Em retrospectiva, esses bons momentos parecem menores sabendo o que vem depois, mas eles estão lá. A queda do avião é espetacular, especialmente porque Raimi explora seus pontos fortes ao atormentar o elenco. A primeira caçada de Linda a um javali é igualmente hilária. Brad também tem momentos engraçados no desenrolar da trama. Vale ressaltar algo que acontece depois da citada reviravolta que é um dos poucos momentos que vale a pena ser visto, tratando-se da luta brutal até a morte entre os protagonistas, antes do final anticlimático.

Em geral, “Socorro!” é um filme que poderia ter uma duração mais enxuta, para terminar exatamente quando começa a se tornar cansativo. O final é decepcionante e algumas partes parecem ter sido refilmadas de última hora. É o tipo de tropeço que faz a obra parecer pior do que realmente é. Curiosamente, se você parar na metade, pode até sair com a impressão de ter visto uma das comédias de terror mais divertidas dos últimos anos.

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