Sirât (por Peter P. Douglas)

Sirât (2025), longa-metragem dramático, coprodução França e Espanha, exibido durante a 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo (2025), com classificação indicativa 16 anos e 120 minutos de duração.

Filme que parece ter sido feito para ser sentido antes de ser entendido. O diretor Oliver Laxe pega um ponto de partida direto — um pai e um filho em busca de uma filha desaparecida — e transforma isso numa travessia que mistura rave, deserto e fim do mundo.

Luis e Esteban cruzam o Marrocos distribuindo panfletos com a foto de Mar, que sumiu meses antes em uma dessas festas itinerantes. A busca os leva a um grupo de viajantes que vivem de rave em rave, em caminhões adaptados, entre batidas eletrônicas e poeira. A partir daí, o filme se descola da realidade como se estivesse sendo guiado por um delírio coletivo. O que começa como uma busca familiar vira uma jornada sem mapa, onde o tempo se dilui e o espaço parece se repetir.

A música eletrônica não é trilha, é motor. O som de Kangding Ray e o trabalho de Laia Casanovas criam uma vibração que atravessa o corpo. A cada nova festa, a cada novo grupo de personagens, o filme parece se reinventar, mas sem perder o foco na sensação de estar perdido. A câmera de Mauro Herce não tenta embelezar o deserto, mas também não o transforma em cenário de desgraça. Ele apenas mostra, como se estivesse ali, no meio daquilo tudo, tentando entender o que está acontecendo.

O elenco mistura atores profissionais e não profissionais. Sergi López segura o centro da história com uma contenção que contrasta com a energia dos ravers. Jade Oukid, Richard Bellamy e os outros parecem ter saído de um documentário, e talvez tenham mesmo. Eles não interpretam, apenas existem — e isso basta.

Há uma tensão que cresce aos poucos. O mundo ao redor parece prestes a ruir, com transmissões de rádio falando de guerra e exércitos surgindo do nada. Além de plot twists que acontecem e, com certeza, pegam o público desprevenido. Mas Laxe não se interessa por explicar, deixando muita coisa no ar, sem que isso prejudique o entendimento de quem assiste.

“Sirât” ganhou prêmios em Cannes, Chicago e Montclair, e não é difícil entender por quê. É o tipo de filme que exige entrega — não porque seja difícil, mas porque não oferece atalhos. Quando termina, a sensação é de ter atravessado algo que não se sabe nomear.

Compartilhe