Resenha | Silêncio, Minha Querida de Leigh Kenny

Silêncio, Minha Querida (Hush, My Darling, 2024), escrito por Leigh Kenny, é um livro de suspense com pinceladas de terror. A trama começa com Megan, uma americana, sem família, viajando pela Irlanda, fazendo exatamente o que qualquer turista faria: dirigindo um carro alugado que parece ter saído direto de um ferro‑velho. No meio dessa aventura automotiva, ela avista alguém na estrada e precisa desviar — porque, claro, sempre tem alguém parado no meio do nada só para atrapalhar. O desvio dá tão certo que ela vai parar numa árvore, o que, convenhamos, era o destino mais provável daquele carro.

Aparentemente no meio do nada, sem sinal de celular e sem saber onde, Megan fica sinceramente aliviada quando alguém aparece para ajudar. E quem surge? Uma dupla de pai e filho que parece saída de um manual de “como deixar um estranho desconfortável em três passos”. Mesmo assim, ela aceita a carona até a casa da família Brogan, porque nada diz “boa escolha” como seguir desconhecidos no interior da Irlanda.

Naturalmente, não demora muito para Megan perceber que teria sido mais seguro continuar abraçada à árvore.

Recebemos esta edição no Kindle como quem abre um pacote misterioso: sem saber o que vinha dentro, mas torcendo para não ser uma cilada literária. Bastaram poucas páginas para perceber que a escrita agarra o leitor com a mesma eficiência de um susto bem dado, e logo já dá para sentir o clima isolado, úmido e nada acolhedor do cenário — aquele tipo de lugar onde até o vento parece ter más intenções.

A história se torna sombria com uma rapidez impressionante, como se alguém tivesse apagado a luz e trancado a porta ao mesmo tempo. Os gatilhos emocionais aparecem sem cerimônia, e o clã Brogan se revela um catálogo completo de tradições que fariam qualquer terapeuta pedir férias prolongadas. E, claro, Megan não é a única jovem em perigo — aparentemente, os Brogan têm um talento especial para transformar hospitalidade em pesadelo.

Assim como nos filmes, “Amargo Pesadelo” e “O Massacre da Serra Elétrica” os vilões deste livro são repugnantes, mas ao mesmo tempo cativantes. E o que mais assusta é o fato de tudo se passar em um local real: o chamado “Triângulo do Desaparecimento”, nome dado pela mídia a uma região da Irlanda, marcada por inúmeros desaparecimentos de mulheres — alguns decorrentes de crimes, outros de tragédias difíceis de compreender.

É importante destacar que o livro contém descrições bastante explícitas de estupro, tortura, cárcere privado e incesto. Além disso, trata‑se de uma narrativa em que o leitor rapidamente percebe que não deve confiar em nenhum personagem. E, para completar, qualquer noção de sororidade não é algo que exista.

“Silêncio, Minha Querida” entrega reviravoltas que surgem do nada, do tipo que fazem você torcer para que Megan consiga sair viva (afinal, todo mundo adora uma “final gilr”, não é?), mesmo sabendo que o universo literário raramente facilita a vida de protagonistas azaradas. Para um livro com menos de 300 páginas, ele se esforça para caber ação suficiente para dois — talvez três — romances de terror.

No fim, é aquele tipo de leitura que você começa achando que vai ser só mais um suspense e termina percebendo que deveria ter deixado uma luz acesa.

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