
O livro “Quando a Noite Cai” é uma antologia que reúne vinte e três contos de autores brasileiros contemporâneos, todos orbitando em torno do mesmo tema: o que acontece quando a luz se vai? Organizado por Ariel Gomes, Rodrigo Fonseca e Débora de Mello, a obra se propõe a explorar o medo em suas mais variadas formas, e o resultado é algo surpreendentemente coeso, ainda que a qualidade entre as histórias oscile.
O prefácio de Marcus Barcelos já adianta o tom: a noite não é apenas a ausência de sol, mas um personagem por si só, um palco onde o ordinário encontra o extraordinário. E é exatamente essa a grande sacada da coletânea. Os autores entendem que o verdadeiro horror muitas vezes nasce do cotidiano, de uma fresta na porta que não deveria estar aberta, de uma batida na janela em uma noite chuvosa.
A diversidade de abordagens é o ponto alto. Temos, por exemplo, o conto de abertura, “Homem Esguio”, de Ariel Gomes, que brinca com a figura do Slender Man, mas o insere em um contexto brasileiro de fogueira de Halloween, criando uma tensão sexual e uma tragédia repentina que funciona muito bem. A morte de Guilherme, esmagado como uma serpente faz com a presa, é brutal e inesperada, e a carta final do narrador dá um tom melancólico à história.
Já “Bal-Bal”, de Rodrigo Fonseca, adota uma perspectiva diferente: a do amigo incrédulo. Cadu é aquele personagem que não acredita em nada, que acha que tudo é fantasia, e seu confronto com a criatura folclórica é uma lição de humildade brutal. A morte de Kelly, com os tentáculos do monstro perfurando seus olhos e boca, é uma imagem grotesca que fica na mente.
“Ensaio Histórico”, de Ana Carolina Vieira Ribeiro, talvez seja um dos mais ambiciosos. Trazer a Medusa para o centro de São Paulo, transformando-a em uma modelo de Instagram que busca vingança contra uma mera mortal por causa do nome “Atena”, é uma ideia ousada. A execução é crua, quase um grito de ódio, e a cena em que as serpentes invadem os olhos e a boca da fotógrafa é descrita com uma violência quase lírica. O fato de os transeuntes acharem que é uma performance artística é um comentário ácido sobre a sociedade que busca o espetáculo.
“O Pastor da Ilha Flann”, de André L. F. Maia, aposta no suspense clássico e na lenda local. A figura do pastor solitário que tenta alertar os jovens sobre o perigo iminente é quase um arquétipo do gênero. A revelação dos Morcegos da Babitonga e a cena da amiga ensanguentada repetindo “fique perto do fogo” constroem uma atmosfera de desespero. A sobrevivente que só escapou por causa da fogueira reforça a ideia de que a luz é a única proteção contra a escuridão.
“Onde o Sol Não Nasce”, de Cacau Correa, muda o cenário para a Noruega e a escuridão das noites polares. O que começa como um estudo psicológico sobre a depressão sazonal gradualmente se transforma em um pesadelo. A figura da sombra que suga a energia, a paralisia do sono, a descida do protagonista à loucura através da automedicação são retratadas de forma perturbadora. A última linha, “Tudo passa, em um piscar de olhos”, lida no contexto, ganha um peso terrível.
“Os Corvos de Nyx”, de Diego Michelini, traz um tom mais fantástico e mitológico. A lenda da deusa e os corvos que carregam almas é apresentada de forma eficiente, e a morte do irmão, empurrado pela janela e depois levado pela ave, é uma imagem forte. O conto tem um quê de conto de fadas sombrio, uma fábula sobre desobediência e perda.
“Medo do Escuro”, de Eduardo Galiani, entrega um dos contos mais aterrorizantes da coletânea simplesmente por jogar com um medo primal: a própria sombra. A construção da tensão é gradual, começando com pequenos fenômenos (luz piscando, torneira pingando) até o momento em que a sombra de Marina ganha vida. A ideia de que a única proteção contra ela é apagar todas as luzes, justamente o que ela mais teme, é um golpe de mestre. O final, com ela sendo puxada para dentro da parede, é angustiante.
“A Maldição do Capelobo”, de Emersoon Lima, explora o folclore nacional com uma história de vingança e maldição hereditária. A transformação da empregada Jaciara na criatura é um momento de choque, e a cena final, com João empunhando o facão para salvar a esposa, deixa um gancho para a imaginação do leitor. O que acontece depois? Conseguirá ele matar a fera?
“O Arranca-Língua”, de Day Fernandes, cria um dos cenários mais sombrios: um ritual de sacrifício em uma caverna. A perspectiva da vítima, Verônica, uma criança muda, é de uma impotência desesperadora. O momento em que o monstro, em vez de sacrificá-la, mata o líder do culto e a poupa é uma reviravolta surpreendente e cruel. Ela não é salva; é apenas ignorada, deixada para trás no horror.
“Wendigos”, de Erico S. Paula, é um conto de sobrevivência com uma reviravolta final eficiente. A perseguição na floresta, a morte dos amigos, a luta desesperada de John contra a criatura. A revelação de que o monstro é, na verdade, o amigo Roger, que estava manipulando tudo, adiciona uma camada de traição e maldade que eleva a história. A cena final, com o avô e o neto em um bar, à procura de nova vítima, sugere que o mal é uma herança de família.
“Medo Ancestral”, de Fabiano Jucá, aposta no horror psicológico e na memória traumática. A história de Rodrigo e sua bisavó, com seus sussurros e ameaças, é um estudo sobre o medo infantil e como ele pode moldar uma vida. A imagem da bisa morta abrindo um olho no velório e sussurrando “espere pelo crepúsculo” é arrepiadora. O conto sugere que alguns medos não morrem com a pessoa que os causou.
“Ao Fechar dos Olhos”, de Francy Lima, traz uma abordagem mais lúdica e fantasiosa, quase infantil. A protagonista, Deise, enfrenta um dia de azar que culmina em um ataque dos “Wits”, criaturas que são a materialização de uma culpa de infância. A aparição de Honey, o amigo imaginário, como seu protetor, é uma virada doce e triste. O conto fala sobre perdão, culpa e a linha tênue entre realidade e imaginação, especialmente em momentos de extremo estresse.
“Meu Nome é Noite”, de Heloysia Galvão, entrega um dos contos mais duros e realistas. A narrativa em primeira pessoa de uma vítima de estupro é crua, dolorosa e necessária. O conto não se apoia em elementos sobrenaturais; o monstro aqui é humano, e a escuridão é cúmplice. A escrita é fragmentada, cheia de repetições, espelhando o estado mental da narradora. É uma leitura difícil, mas poderosa em sua honestidade brutal.
“Corvo”, de Jim Cavezell, faz uma homenagem explícita a Edgar Allan Poe, mas com um toque pessoal. O corvo aqui não é apenas um mensageiro, mas um portador do mal, uma entidade que corrompe e destrói. A descida à loucura do protagonista é progressiva, e a cena dos “três 6 grotescos” surgindo na parede é um clímax visual forte. O final, com o narrador já morto se dirigindo ao leitor, é um aceno clássico ao terror gótico.
“A Face do que Vem com a Noite”, de John K., constrói uma mitologia própria em torno de um guardião e de criaturas das trevas. O conto tem um tom épico e solene, quase bíblico. A luta do velho guardião contra as hostes de sombras e seu sacrifício final é uma cena de ação bem escrita. A coda, com os meninos encontrando a bola e a espingarda no local da batalha, sugere que o ciclo de violência e proteção está longe de terminar.
“O Diário de César”, de Claudia Lemes, autora experiente no gênero, entrega um dos contos mais bem construídos da antologia. A tensão é magistral. Laila, a jovem religiosa, decide passar o fim de semana com o namorado para perder a virgindade. Ao arrumar a casa, encontra um diário. A princípio, ela acha que são fantasias macabras de César, mas a leitura revela algo muito pior: ele é um assassino. A cena em que ela o imobiliza com o rodo enquanto ele reza é de uma tensão insuportável. A reviravolta final, ao ler as últimas páginas e descobrir que César a amava e planejava pedi-la em casamento, e que o diário macabro era fruto da influência maligna da casa, é de uma ironia trágica devastadora.
“Tudo Sob Controle”, de L. J. Lunewalker, apresenta um protagonista arrogante, Alberto, que acredita controlar todos os aspectos de sua vida. Quando seu carro quebra em uma estrada deserta, ele se vê completamente impotente. O encontro com o matuto e seu aviso (“Quando a noite cai por aqui… Tudo é história”) prepara o terreno para o horror que se segue. A desintegração de sua sanidade e a sensação de ser caçado por algo invisível são transmitidas com eficiência. O final, com a repetição de “Não tinha mais a vida sob controle”, é um epitáfio perfeito para sua arrogância.
“Raven Mocker”, de Letícia P.S., traz uma lenda interessante: um corvo que se alimenta da energia vital dos moribundos. A história de Jéssica e seu filho doente, Antônio, é comovente. A perseguição implacável da criatura e a tentativa desesperada da mãe de protegê-lo, mesmo dentro de uma igreja, são emocionantes. O final, com o padre matando o menino para salvá-los, mas a criatura ainda assim levando seu coração, é de uma crueldade absoluta, deixando Jéssica sem nada.
“A Fera”, de Lu Queiroz, oferece um respiro de ação e um final mais otimista dentro do horror. A transformação de Diana em lobisomem para salvar Karina do vampiro é uma cena de ação bem coreografada. A dinâmica entre as duas, com Diana sendo inicialmente uma figura que causa medo e depois se revelando uma salvadora, é interessante. A deixa final, com a vampira jurando vingança, sugere que essa história pode continuar.
“Elise”, de Marina Miranda, escreve um dos contos mais tristes e poéticos da coletânea. A história de um homem que perdeu a esposa e, em uma noite de luto e vinho, a vê retornar. A descrição do reencontro é bela e cheia de ternura. Mas o leitor sabe que algo está errado. O final, com a revelação de que ele passou a noite com o cadáver em decomposição e depois se enforcou, é de uma melancolia assombrosa. “Uma vida por uma noite” é uma frase que resume todo o desespero do amor e da perda.
“Os Lugares Escuros”, de Danilo Mattos, aposta no suspense e na perseguição. Nina, sequestrada por um policial corrupto que foge de uma criatura, é uma personagem forte e determinada. A decisão de algemar o sequestrador ao volante do carro em chamas, deixando-o para a criatura, é um ato de vingança fria e calculista. O conto é eficiente em sua simplicidade: uma garota, um monstro e uma estrada escura.
“Von Way, Soturno e Embriagado”, de Letícia Godoy, traz um tom mais vampiresco e sedutor. A festa, a figura misteriosa de Baby, a perda de controle de Von Way. A transformação da inocência aparente em perigo real é o tema central. O final, com ele encontrando os óculos de coração no bolso e ligando para o irmão, sugere que a noite mudou algo fundamental nele.
“Nascimento da Caçadora”, de P. Cezar, fecha um ciclo. O que começa como uma tragédia, com a morte do irmão e do namorado de Cassandra pelas mãos do Corpo Seco, termina com uma promessa de vingança. O salto de cinco anos no tempo, mostrando Cassandra treinada e preparada para enfrentar a criatura, transforma a história de uma simples lenda local em uma narrativa de origem de uma heroína. É um final que abre portas, que sugere que a luta contra a escuridão é contínua.
“A Deusa de Três Faces”, de Rafael Danesin e “Eu, Eva e a Sombra” de Rodrigo Ortiz Vinholo, fecham a antologia com chave de ouro, explorando temas de identidade e o horror que vem de dentro. Danesin traz o folclore celta e a questão de gênero de forma surpreendente. A revelação de que Steven é uma mulher trans e que isso a salva do sacrifício é um momento de virada inesperado e poderoso. Já Vinholo constrói um dos contos mais originais do livro, onde o horror é a materialização de uma relação abusiva e obsessiva. A ex-namorada, Eva, não é apenas uma perseguidora; sua sombra é uma entidade viva que a envolve e controla. O medo da narradora pode ser sentido, e a ideia de que a única defesa é a luz constante é aterrorizante.
Se há um ponto fraco na coletânea, é a inevitável irregularidade. Alguns contos são mais desenvolvidos que outros, e certas ideias parecem pedir um fôlego maior do que as poucas páginas permitem. Mas isso é quase uma característica do gênero. O que “Quando a Noite Cai” faz de forma correta é oferecer um cardápio variado de medos. Há espaço para o monstro folclórico, para o assassino em série, para o trauma psicológico, para o sobrenatural e para o horror mais mundano da perda e da solidão.
A edição da Editoria Hope é caprichada, com uma diagramação limpa e informações sobre cada autor, o que ajuda o leitor a descobrir novos nomes da literatura nacional de terror. A antologia cumpre seu papel de ser uma vitrine para essa nova geração de escritores brasileiros que, longe dos holofotes das grandes editoras, estão construindo um cenário rico e diversificado para o gênero no país. Ao final da leitura, fica a certeza de que, quando a noite cai, há muitas histórias esperando para serem contadas. E, como bem lembram os organizadores, não é só porque você não vê o que te cerca, que o que te cerca não te vê.
















