
No livro “Os Três”, escrito por Sarah Lotz, após a queda simultânea de quatro aviões em pontos distantes do mundo, três crianças surgem vivas e sem ferimentos entre os destroços — e ainda há a possibilidade de uma quarta, cuja existência permanece em aberto. Rapidamente apelidadas de “as Três”, elas passam a ser tratadas pela mídia como fenômenos, dividindo opiniões entre quem as vê como milagres e quem as enxerga como sinais de algo muito mais sombrio.
“Os Três” é construído como se fosse um livro de não-ficção, apresentado em forma de investigação jornalística sobre o acidente, seus desdobramentos e o impacto sobre os sobreviventes e suas famílias.
Como acontece com obras que adotam esse estilo documental, criar vínculos emocionais entre personagens e leitor pode ser um desafio. Lotz enfrenta essa dificuldade ao manter a postura de autora‑jornalista, sempre observando de maneira distante. A entrada de Paul, tio de uma das crianças, ajuda a suavizar esse distanciamento: seus relatos, apresentados como transcrições de gravações enviadas à autora, oferecem uma narrativa mais tradicional, que vai se tornando progressivamente mais instável.
É nos trechos que tratam diretamente das crianças que Lotz insere os elementos mais típicos do horror clássico. Comportamentos estranhos, mudanças bruscas e até episódios aparentemente milagrosos — como o avô com Alzheimer que recupera a lucidez na presença do neto — criam uma atmosfera que pode sugerir o sobrenatural, mas que também pode ser explicada como trauma ou coincidência. Essa ambiguidade é bem construída, embora, em certo ponto, acabe se tornando excessiva, especialmente porque o desfecho do romance não se alinha totalmente ao clima estabelecido até então.
O comportamento inquietante das crianças gera tensão constante, reforçada pela presença de um grupo religioso que acredita que os sobreviventes — e a possível quarta criança — seriam os Quatro Cavaleiros do Apocalipse.
A estrutura documental permite ao leitor manter certa distância, o que, combinado à incerteza sobre a verdadeira natureza das crianças, cria um conflito interessante: questionar se o grupo radical pode estar certo ou temer que estejam perseguindo jovens traumatizados e vulneráveis. É um efeito bem construído e perturbador na medida certa.
Por outro lado, o formato de “livro de não-ficção” também limita o envolvimento emocional. A trama é complexa, o tom é neutro e, embora a tensão esteja sempre presente, falta aquela sensação crescente de terror que marca as obras mais intensas do gênero. “Os Três” funciona melhor como suspense, flertando ocasionalmente com o sobrenatural sem mergulhar completamente nele. A conclusão, para alguns leitores, pode enfraquecer o impacto do restante da narrativa, e o epílogo final não dialoga tão bem com o tom geral.
Ainda assim, “Os Três” deixa algumas marcas, especialmente por sua reflexão sobre a relação entre mídia, histeria coletiva e medo. É uma leitura que vale a pena para quem busca um suspense intrigante, com toques de inquietação, mas sem mergulhar totalmente no horror mais profundo.
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