
A história do livro “O Demonologista”, escrito por Andrew Pyper, começa girando em torno do Professor David Ullman, um especialista em Milton que, de tanto mergulhar na obra “Paraíso Perdido”, acabou ficando famoso o suficiente para ser chamado para uns “trabalhos especiais” aqui e ali — aqueles casos que só chamam alguém quando querem um intelectual para dizer que está tudo bem.
Quando surge uma proposta misteriosa para visitar a Itália, Ullman enxerga a chance perfeita de fugir do divórcio e, quem sabe, passar um tempo decente com a filha. Claro que nada disso sai como planejado. A viagem, que deveria ser um respiro, vira um teste de fogo para o ceticismo dele, e o suposto suicídio da filha o empurra para uma busca desesperada por respostas — e por ela — enfrentando seres cuja existência ele passou a vida inteira descartando com orgulho acadêmico.
Por trás do que parece ser apenas mais uma história de terror com demônios e enigmas, o livro esconde uma investigação bem mais incômoda sobre depressão e o peso de tudo aquilo que a gente tenta fingir que não carrega. Ullman é um homem que se isolou tanto dentro da própria cabeça que acabou empurrando a esposa para outro relacionamento, e Pyper faz questão de mostrar esse recolhimento em cada canto da narrativa.
A jornada física do professor funciona quase como um espelho da vida interior dele, sempre orbitando Milton. Tess, a filha, também carrega a mesma sombra emocional, o que explica por que sua presença continua tão forte mesmo depois de sua morte inicial. E, claro, a dúvida sobre a sanidade de Ullman paira o tempo todo — Pyper mantém essa incerteza viva, mas sempre fora do alcance de quem tenta agarrá-la.
Parte do mérito em deixar o leitor desconfiado do narrador está no retrato completo que Pyper faz de Ullman. A narrativa, quase toda pela perspectiva dele, permite acompanhar sua mente com clareza suficiente para acreditar nele, mesmo quando tudo ao redor sugere o contrário. A presença de Tess continua firme graças a pequenos desvios narrativos e, principalmente, ao diário dela, que funciona como uma janela para algo que Ullman talvez nunca tenha entendido totalmente — inclusive sobre si mesmo.
Os demônios da história são retratados de forma perturbadoramente humana, e Pyper mistura psicologia e sobrenatural com uma naturalidade que deixa tudo ainda mais inquietante. O problema é que, quando a trama parece caminhar para um confronto arrebatador, o livro resolve tomar um rumo mais didático, quase como se alguém tivesse lembrado que precisava “explicar” demais. O último quarto sofre com isso, e o final dá aquela sensação de que o autor puxou o freio de mão na hora errada. É frustrante, especialmente depois de 300 páginas construindo algo tão promissor.
Ainda assim, “O Demonologista” é um romance que prende, fascina e conversa tanto com leitores casuais quanto com quem gosta de mergulhar fundo em temas mais densos. O final pode decepcionar, mas a jornada — essa sim — vale cada página.
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