Resenha | Eu, Monstro de Rafael Tsuchia e Outros

O livro “Eu, Monstro”, organizado por Rafael Tsuchiya e publicado pela Editorial Hope, é uma daquelas antologias que chegam dizendo: “Temos 28 contos, então com certeza um deles vai te pegar”. A proposta é simples e ambiciosa ao mesmo tempo: reunir autores brasileiros para explorar a figura do “monstro” sob todos os ângulos possíveis — dos clássicos mitológicos e folclóricos até aqueles bem mais assustadores que moram dentro da cabeça da gente.

O tema central é a dualidade entre a humanidade e a bestialidade, questionando muitas vezes se o verdadeiro monstro é aquele que possui garras e presas ou aquele que esconde a sua maldade sob uma aparência normal.

Com prefácio escrito por Soraya Abuchaim, o livro possui os contos:

1) “Monstro Paradoxal” escrito por AMANDA REZNOR: O conto é narrado pela própria Depressão, personificada como um “monstro” antigo, sincero e incômodo, que observa e influencia as pessoas. Ela se vê como uma força inevitável, que expõe fragilidades humanas e ultrapassa limites emocionais, acreditando ser uma espécie de guia para quem enfrenta o vazio interior. Em uma sessão de terapia tensa com a enigmática Doutora Morte, as duas discutem sua influência sobre pessoas em sofrimento, revelando uma relação complexa entre ambas. Quando a conversa ameaça chegar a um ponto perigoso, a Depressão foge, recusando-se a ser controlada. Paralelamente, uma mulher chamada Angelita encara seu reflexo e percebe a presença desse “monstro” à espreita, sugerindo que a Depressão continua viva, persistente e sempre pronta para retornar.

2) “Depois da Carne” escrito por OSCAR NESTAREZ: O conto acompanha um homem isolado em uma antiga fazenda, refletindo sobre até onde seus impulsos o levaram. Ele vive afastado da sociedade e dedica sua fortuna a manter um esquema secreto e cruel, sustentado por Tomé, seu fiel assistente, e outros homens contratados. Durante meses, ele buscou experiências cada vez mais extremas, acreditando que isso lhe proporcionava uma espécie de elevação espiritual. Agora, porém, ele se vê esvaziado e incapaz de encontrar sentido no que antes o movia. A dúvida — “quão longe é longe demais?” — passa a dominá-lo. Quando chega a hora de repetir seu ritual, ele percebe que algo mudou: diante de um menino trazido para a adega, ele hesita pela primeira vez. Um momento de aparente compaixão surge, confundindo seus próprios padrões. Essa mudança, no entanto, não o redime. O gesto que parecia ser de acolhimento revela-se apenas uma nova forma de seguir o mesmo caminho sombrio, agora guiado por uma sensação renovada de propósito.

3) “Por Trás da Pedra” escrito po ORTIZ VINHOLO: O conto é narrado por uma criatura inspirada na Medusa, um ser eterno que vive isolado e deseja apenas permanecer em paz. Ela explica que os humanos não compreendem a verdadeira solidão e, apesar de sua vontade de se esconder, continuam a procurá-la, alimentando lendas que atraem ainda mais aventureiros ao seu território. Quando alguém a encara, transforma-se em pedra — mas, ao contrário do que dizem as histórias, essas estátuas continuam vivas por dentro. Suas consciências permanecem ativas, sentindo medo, desespero, ódio ou tristeza, e são justamente essas emoções intensas que alimentam a criatura. Por isso, ela mantém ao redor de si um “jardim” de humanos petrificados, que garantem sua sobrevivência eterna. Ao longo dos séculos, apenas um jovem guerreiro se mostrou diferente. Após ser petrificado, ele não sentiu medo nem ódio, mas uma calma profunda, pois desejava desaparecer do mundo. Intrigada, a criatura o libertou — e imediatamente ele voltou a sentir medo e raiva, tentando atacá-la repetidas vezes. Incapaz de aceitar a própria existência, o jovem queria ser petrificado novamente para fugir da vida e da morte. Depois de várias tentativas frustradas de fazê-lo partir, a criatura o amaldiçoa com a eternidade: ele jamais morrerá ou envelhecerá, condenado a vagar para sempre em busca de uma paz que talvez nunca encontre. Mesmo assim, ele continua retornando, incapaz de mudar. No fim, a narradora conclui que os humanos sempre encontram algo para justificar seu sofrimento — e que talvez ela seja apenas mais uma desculpa para aquilo que já carregam dentro de si.

4) “O Tempo da Morta-Viva” escrito por JULIA DO PASSO RAMALHO: O conto é narrado por uma mulher que, após um ataque misterioso durante um surto que devastou sua cidade, transforma-se em uma criatura semelhante a um zumbi. Conforme sua humanidade se desfaz, ela tenta manter um “diário mental” para lembrar quem foi um dia — esposa, mãe, alguém com uma vida comum. A transformação altera seu corpo, sua mente e seus sentidos. Ela perde a capacidade de falar, passa a sentir uma fome incessante e deixa de compreender emoções que antes lhe eram familiares. A convivência com o marido e os filhos se rompe quando todos acabam também transformados, e ela passa a vagar sozinha por um mundo arruinado, guiada apenas pela fome e por fragmentos de memória. Com o tempo, seu corpo se deteriora e ela se afasta cada vez mais de qualquer traço humano. Isolada em um campo deserto, enfraquecida e incapaz de encontrar outros seres vivos, ela teme ser o último monstro restante. Enquanto espera, percebe que pequenas criaturas começam a se alimentar dela — e ela delas — num ciclo estranho que lhe traz alguma companhia. Sem noção de tempo e cada vez mais distante da pessoa que foi, a narradora teme que essa existência solitária e interminável seja tudo o que lhe resta.

5) “Mike Story, O Erradicador de Rastros” escrito por TÁBATHA GAGLIERA: Uma carta, é narrada por Mike Story, uma criatura do “Lado de Cá”, responsável por impedir que humanos descubram a existência de seres e fenômenos sobrenaturais. Seu trabalho consiste em manter a humanidade cega para tudo o que ameaça sua frágil noção de realidade — algo que, segundo ele, os próprios humanos já fazem muito bem sozinhos. Mike explica que seu maior problema não são monstros, mas sim humanos obsessivos, inteligentes e socialmente deslocados, aqueles que investigam o inexplicável com dedicação fanática. Esses indivíduos, com suas teorias, cálculos e provas, colocam em risco todo o sistema de ocultação do mundo sobrenatural. Felizmente, diz ele, a sociedade costuma ignorá-los… a menos que fiquem ricos ou famosos, o que complica tudo. Com ironia, Mike alerta que nada de extraordinário acontece sem a permissão das criaturas da Irrealidade — e que quem insiste em mexer com o desconhecido acaba entrando em sua “lista de tarefas”. A carta termina com uma ameaça velada (e debochada) ao leitor, sugerindo que ele está prestes a ser visitado por Mike por ter se aproximado demais da verdade.

6) “Devoção” escrito por R. A. TSUCHIYA: O conto é narrado pela entidade demoníaca que possui um menino durante um exorcismo. Preso ao corpo ferido da criança, o demônio observa a mãe desesperada e o padre Jorge tentando expulsá-lo com orações e rituais. Enquanto o padre insiste nas fórmulas sagradas, o demônio provoca, humilha e manipula ambos, explorando suas fragilidades emocionais e espirituais. A mãe, exausta e devastada, começa a perder a fé ao perceber que seu filho não voltará a ser quem era. O demônio intensifica essa crise, usando a voz da criança para abalar suas últimas esperanças. Diante do sofrimento e da ausência de respostas, a mulher abandona a fé e sai do quarto, completamente destruída. O padre, abalado, confronta o demônio e pergunta se esse era seu objetivo. A entidade revela que nunca quis a alma da criança — pura demais para ser corrompida —, mas sim destruir a fé da mãe. Em seguida, o corpo do menino sucumbe, deixando o padre sozinho, horrorizado e emocionalmente arrasado. O conto termina com o padre em choque, segurando sua Bíblia danificada, enquanto o demônio alcança exatamente o que queria: a ruína espiritual dos vivos.

7) “Criatura” escrito por BÁRBARA PIPPA: A narradora nasceu com uma marca profunda no rosto, algo que a sociedade sempre considerou feio, estranho ou ameaçador. Desde a infância, foi isolada, rejeitada e ridicularizada — nunca teve amigos, romances ou acolhimento. Cresceu acreditando que, por não se encaixar nos padrões de beleza e comportamento impostos, era vista como um monstro. Após anos de sofrimento, solidão e abandono, ela se afasta completamente do convívio humano. Consumida pela dor e pela revolta, decide buscar vingança contra aqueles que a feriram e contra todos que perpetuam preconceitos e violências contra minorias. Ela passa a atacar seus antigos agressores, marcando-os com a mesma cicatriz que carrega no rosto e devolvendo, de forma brutal, tudo o que recebeu. Com o tempo, perde sua identidade, seu nome e sua humanidade. Vive escondida, degradada, alimentando-se do que encontra e habitando uma casa abandonada. Para o mundo, deixou de ser pessoa; tornou-se criatura. E, na sua visão, aqueles que a criaram — os que a rejeitaram e a feriram — são os verdadeiros monstros. Agora, completamente transformada, ela se vê como a caçadora que a sociedade ajudou a moldar, pronta para perseguir todos que um dia a fizeram sofrer.

8) “Água Carmim” escrito por SÁVIO BATISTA: O narrador é uma criatura ancestral que vive nas profundezas de um grande rio, isolada e praticamente esquecida pelo tempo. Ele não sabe se ainda existe outro ser como ele e evita qualquer comunicação, pois sua voz é tão antiga e poderosa que enlouquece quem a ouve. Sua rotina consiste em proteger seu território dos humanos, que ele considera uma praga destrutiva: pescam demais, poluem e invadem seu lar. Durante séculos, ele permaneceu recluso, mas um encontro com uma nadadora que se aproximou demais despertou seu instinto predatório. Ao atacá-la, descobriu o sabor da carne humana — e se tornou viciado. Desde então, passou a caçar humanos isolados, até que eles começaram a se adaptar, criando amuletos, esculturas e superstições para tentar afastá-lo. Apesar disso, o monstro continua observando e atacando quando pode. Um dia, porém, é capturado por uma rede de pesca. Preso e vulnerável, tenta se comunicar com os pescadores, e sua voz provoca neles loucura e pânico. No caos, ele consegue se libertar, vira o barco e ataca os quatro homens um a um, retornando depois às profundezas satisfeito — até que a fome volte. O conto termina com o monstro novamente em seu repouso, atento aos humanos que insistem em invadir seu território, pronto para caçar quando a necessidade retornar.

9) “Queria Ser Humano” escrito por ELIAS M. ARTHUR: A história é narrada por Jhonatan A. Oliver, um jovem de 22 anos que se tornou zumbi e vive isolado em uma casa abandonada na floresta. Sua rotina alterna entre o físico e o digital: enquanto seu corpo apodrece lentamente, ele passa horas navegando no “Facebiuk”, observando com inveja a vida perfeita e os lanches apetitosos das pessoas vivas. Para sobreviver sem causar alvoroço na cidade, ele frequenta um cemitério nas madrugadas para desenterrar e comer cérebros de recém-mortos. Apesar de sua condição asquerosa, Jhonatan ainda guarda traços de humanidade. Ele se sente minimamente “visto” quando moradores de rua o cumprimentam pelo apelido de “Fedor” e mantém suas contas de luz e internet pagas através de um saldo bancário que restou de sua vida anterior como CEO. O seu maior conflito é a solidão e o desejo profundo de voltar a ser humano, de ter dentes que não caiam e de não ser um objeto de nojo. O ponto de virada ocorre quando ele vê no celular uma notícia sobre uma suposta cura para zumbis, que inclui reconstrução de cordas vocais e integração social. Motivado pela esperança, ele veste seu antigo terno (mesmo que partes de seu corpo caiam no processo) e caminha por horas até a cidade para encontrar o local indicado. Ao chegar ao prédio, Jhonatan é recebido com escárnio. Uma multidão de humanos o rodeia não com empatia, mas com celulares em punho, buscando fotos e curtidas. Um garoto chega a vomitar nele e, em seguida, tira uma selfie rindo. Ao observar a fila de outros zumbis e o comportamento dos vivos do lado de fora — todos obcecados por telas, aparências e interações superficiais nas redes sociais — Jhonatan tem uma epifania amarga. Ele percebe que os humanos, em seu automatismo e vício digital, agem como mortos-vivos.

10) “Brincadeira do Copo” escrito por PALOMA SAMA: O narrador é um espírito vingativo que observa três adolescentes realizando a “brincadeira do copo”. Inicialmente, elas tratam o ritual como diversão, rindo e zombando, o que desperta a fúria da entidade. Quando o copo começa a se mover, as garotas percebem que algo real está acontecendo. O espírito responde às perguntas, manipula o copo e alimenta-se do medo crescente delas. A líder do grupo, Kely, tenta manter o controle, mas a entidade se irrita com a ousadia e passa a ameaçá-las diretamente. O ritual é interrompido quando os pais chegam e quebram o copo, acreditando que isso encerraria a comunicação. No entanto, o gesto apenas liga o espírito a Kely de forma permanente. A partir daí, a vida da garota se transforma em tormento. Ela passa a ver e sentir coisas que ninguém mais percebe: objetos se movem, aparelhos ligam sozinhos, alimentos parecem contaminados, vultos surgem e a entidade invade seus pensamentos e sonhos. Kely tenta pedir ajuda, mas ninguém acredita nela. A perseguição constante a leva ao esgotamento físico e emocional. Incapaz de dormir, comer ou encontrar alívio, ela perde a sanidade. Eventualmente, sucumbe ao desespero e tira a própria vida. No enterro, o espírito observa tudo com satisfação e escolhe, entre as amigas sobreviventes, qual será sua próxima vítima.

11) “Cria Profana” escrito L. J. BRUNH: O conto narra o despertar agonizante de uma consciência que, inicialmente perdida no vazio e na dor, descobre-se parte de um amálgama de almas presas umas às outras por amarras espirituais. Através de um ritual macabro envolvendo símbolos ocultos e corpos mutilados, essas essências são forçadas a habitar uma criatura monstruosa, alta e multiarticulada, dotada de múltiplos olhos e uma sede insaciável de sangue. Sob o comando de um criador encapuzado, a entidade coletiva é enviada para cumprir uma missão de vingança, movida por uma fome visceral e uma fúria que sobrepuja qualquer vestígio de individualidade humana. Durante a invasão a uma propriedade, a criatura demonstra uma força devastadora, massacrando guardas enquanto o narrador percebe que, ao matar e consumir seus oponentes, novas essências são incorporadas ao grupo, fortalecendo o corpo físico e expandindo a consciência do “nós”. O conflito interno entre o horror da situação e o prazer da caça se dissolve à medida que o grupo busca o alvo final: um homem covarde que, no passado, fora responsável pelo sofrimento das almas que agora compõem o monstro. Ao encontrar o alvo, a criatura ignora a família do homem e o submete a um desmembramento brutal e lento. O narrador intervém apenas para impedir que a alma daquele “verme” seja absorvida pelo coletivo, preferindo deixá-lo morrer definitivamente a permitir que ele se torne parte deles. Com a morte do objetivo, as amarras mágicas que forçavam a obediência ao mestre original se rompem. Agora livre e autônomo, o monstro aceita sua natureza como uma soma de vontades e parte para a escuridão, decidido a encontrar seu criador para se vingar e continuar expandindo sua legião de almas.

12) “O Cordeiro” escrito por CACAU CORREA: O conto acompanha Evanora, a anciã de Azure, um antigo coven de bruxas skinwalkers que vive na floresta de Valverde e se alimenta de carne humana — especialmente de mulheres, cuja vitalidade as rejuvenesce. Com o passar dos séculos, o grupo diminuiu e a caça na floresta se tornou escassa, levando Evanora a decidir que é hora de migrar para a cidade de Carazinho. Para agir sem levantar suspeitas, as cinco bruxas incorporam os corpos dos gatos de uma senhora solitária. Dentro da casa, elas observam a rotina da mulher até que, sob comando de Evanora, iniciam o ataque. Após matá-la, retornam às suas formas originais e preparam um ritualístico ensopado com sua carne, que restaura suas forças e juventude. Enquanto descansam após o banquete, a campainha toca: uma jovem parente da vítima entra na casa. As bruxas, novamente nos corpos dos gatos, atacam de imediato. A chegada da moça garante mais alimento — e inaugura a nova fase do coven na cidade, onde pretendem continuar caçando e se fortalecendo.

13) “A Fera é o Homem da Fera” escrito por GEORGE CARVALHO: O narrador é o próprio Capelobo, uma criatura lendária que vive na mata e luta constantemente contra a fome que o enlouquece. Durante o dia, ele se disfarça como Roberto, um velho guia aposentado que mora à beira da floresta. Quando dois caçadores — Evaristo e Amaral — chegam pedindo sua ajuda para capturar animais silvestres, ele aceita acompanhá-los, já planejando transformá-los em suas próximas vítimas. Enquanto os homens avançam pela mata, Roberto percebe sinais de que o capelobo — ele mesmo — esteve por perto, mas os caçadores ignoram seus alertas e continuam. Ao anoitecer, Roberto se afasta e, escondido, espera a transformação que ocorre sempre à noite: seu corpo se torna o de uma criatura monstruosa, com pelos negros, patas fendidas e olhos vermelhos. Guiado pelo cheiro do medo, ele encontra os caçadores acampados e os ataca um a um, consumindo-os. Após saciar sua fome, retorna à forma humana antes do amanhecer, destrói as armadilhas deixadas na mata e volta para casa. Na manhã seguinte, senta-se novamente em sua cadeira de balanço, observando a estrada e aguardando tranquilamente por novas vítimas.

14) “Liberdade” escrito por ALINE CRISTINA MOREIRA: O narrador é um vampiro capturado por um humano chamado Carlos, que o mantém acorrentado no porão para exibi-lo como atração a amigos curiosos. Fraco e queimado pela luz do sol usada como demonstração, ele é forçado a sobreviver com pequenas quantidades de sangue, enquanto observa os humanos lucrarem com seu sofrimento. Um dia, entre os visitantes, uma jovem demonstra interesse incomum por ele. Mais tarde, ela retorna sozinha ao porão e pede para ser transformada em vampira. O narrador percebe que essa é sua oportunidade de escapar. Fingindo hesitação, ele a convence a se aproximar e, ao beber seu sangue, recupera suas forças e se liberta das correntes. Agora fortalecido, ele permanece na casa para se vingar. Quando Carlos, Gustavo e duas garotas retornam, o vampiro os surpreende e elimina um por um, alimentando-se deles. Carlos, o captor, é o último — e o vampiro faz questão de prolongar seu sofrimento antes de matá-lo. Ao final, o narrador se sente finalmente livre, satisfeito por ter revertido a humilhação e a crueldade que sofreu.

15) “Insight” escrito por J. J. JÚNIOR: O conto acompanha Coraline, uma entidade ligada ao terror do sono — a Pisadeira — que vaga entre sonhos e pesadelos, alimentando-se do medo humano. Ela encontra um jovem perdido à beira de uma estrada nebulosa, um espaço que mistura realidade e sonho. Ele tenta ajudá-la, acreditando que ambos estão apenas sonhando, mas Coraline sabe que aquele lugar é um limiar perigoso, onde memórias traumáticas e visões se misturam. Enquanto caminham juntos, Coraline manipula o garoto, testando seus medos e fragilidades. Aos poucos, suas lembranças emergem: a morte da irmã, a violência do pai, a culpa que a transformou em algo monstruoso. Esses fragmentos revelam que Coraline não é apenas uma presença sobrenatural — ela é a personificação de traumas que nunca foram superados. O garoto tenta entender o que está acontecendo, mas Coraline o conduz cada vez mais fundo em seu próprio pesadelo. Ela descobre que o maior medo dele é a solidão, e usa isso para quebrar sua resistência emocional. Quando ele finalmente reconhece quem ela é — a Pisadeira — o cenário se desfaz, revelando sua forma monstruosa e o destino inevitável do rapaz. No fim, Coraline o domina completamente, aprisionando-o em um sono eterno. Ao sussurrar “boa noite, papai”, o conto revela que o jovem é, na verdade, o pai que a matou no passado — e que agora enfrenta a vingança da criatura que ela se tornou.

16) “Pacífico, O Gênio Preso na Constelação de Vidro” escrito por BRUNO COSTA: O narrador é Pacífico, um gênio da água aprisionado dentro de uma garrafa de cachaça. Ele explica que, ao contrário das histórias tradicionais, gênios não realizam desejos por bondade — eles manipulam, distorcem e arrastam humanos para suas próprias ruínas. Seu “libertador” é Carlos Silva, um escritor fracassado, alcoólatra e desesperado por inspiração. Quando Carlos abre a garrafa, é transportado para um espaço surreal — uma espécie de dimensão entre realidade e delírio alcoólico — onde Pacífico se manifesta como uma entidade poderosa e debochada. O gênio revela que não concede desejos escolhidos, mas sim o desejo mais profundo e inconsciente da alma de quem o liberta, sempre com consequências devastadoras. Carlos tenta racionalizar a experiência como um sonho, mas Pacífico o confronta com a verdade: ele está preso na “Página”, um espaço metafórico onde sua própria escrita ganha forma. O gênio então mostra ao rapaz a cena de sua morte — um acidente grotesco causado por sua bebedeira — e explica que seu último texto se tornará famoso não pela qualidade, mas pela tragédia que o envolve. No fim, Carlos está morto, sua história está escrita, e Pacífico se diverte com a ironia cruel: o escritor finalmente terá reconhecimento, mas apenas como um cadáver cuja desgraça será consumida pelo público. O conto termina retomando o parágrafo inicial, agora revelado como parte da obra póstuma de Carlos.

17) “Gosto de Sangue” escrito por KADU HAMMETT: O conto narra a transformação de Ricardo em um vampiro após ser atacado misteriosamente em uma praça. Ao acordar no hospital, ele percebe sinais estranhos: seus batimentos cardíacos estão parando, ele não sangra ao se cortar e possui uma força descomunal. Inicialmente, ele tenta negar sua nova natureza — chegando a se aliviar ao ver seu reflexo no espelho —, mas, com o passar das horas, a sede de sangue e a perda definitiva do reflexo confirmam sua condição. Diferente de muitos protagonistas que lutam contra o monstro interior, Ricardo aceita sua nova identidade com entusiasmo. Ele abandona qualquer senso de remorso e inicia uma onda de assassinatos brutais, que culmina em um massacre em uma boate. Para ele, a humanidade agora não passa de “gado”. O conto destaca que as fraquezas clássicas (como crucifixos) são, em grande parte, mitos, e que a sedução e a força são suas maiores ferramentas de poder. A dinâmica muda quando Ricardo ataca uma mulher em um terreno baldio e, em vez de morrer, ela sobrevive e se transforma. Ele a recruta para ser sua parceira, e juntos passam a aterrorizar a cidade em uma rotina eterna de luxúria, violência e banquetes de sangue. O texto termina com a aceitação de que ambos estão condenados — ou presenteados — com uma existência imortal onde o prazer e a morte caminham lado a lado, governando sobre os vivos sem qualquer rastro de piedade.

18) “Corruptível” escrito por LÊTICIA LOPES: O narrador é um dybbuk, um espírito maligno que vaga pelo mundo possuindo corpos humanos. Ele já esqueceu seu nome original e adota o nome de cada pessoa que invade. No início do conto, abandona um corpo que não suportou sua presença e passa a habitar o de Natanael, um garoto que vive em um ambiente de violência e abandono. Explorando a mente do menino, o dybbuk descobre seus medos, traumas e desejos reprimidos — especialmente o ódio pelo padrasto agressivo e a dor de ver a mãe constantemente machucada. Alimentado por essas emoções, o espírito começa a agir através do garoto, intensificando o caos dentro da casa. Enquanto o corpo de Natanael se deteriora rapidamente sob sua influência, o dybbuk percebe a presença de outra criança: Ângela, a irmã mais nova. Ela é pura, jovem e emocionalmente vulnerável — exatamente o tipo de receptáculo ideal que ele procura. Quando a mãe tenta intervir, o espírito assume o controle total e provoca terror absoluto. No confronto final, Ângela, tomada pelo desespero, ataca o próprio irmão para tentar salvá-lo. Isso rompe sua inocência, tornando-a espiritualmente frágil e, portanto, perfeita para ser possuída. O dybbuk abandona o corpo de Natanael e toma o de Ângela, encerrando o conto com sua nova identidade: “Agora, me chamo Ângela.”

19) “A Mulher Que Vem À Noite” escrito por ÚRSULA ANTUNES: A narradora é uma súcubo, uma entidade demoníaca que se alimenta da energia vital e da alma de humanos através do desejo. Vista pelos outros como uma mulher calma e discreta, ela revela que essa aparência apenas encobre sua verdadeira natureza: uma criatura antiga, fria e predadora, que existe há séculos graças à vulnerabilidade humana às tentações da carne. Após décadas de atividade intensa — incluindo sua atuação durante a epidemia de HIV nos anos 1980 — ela decide se refugiar em uma pequena cidade nas montanhas, Corrêas, para descansar. Lá, assume a forma humana de uma funcionária de cervejaria, convivendo diariamente com homens cujos desejos ela desperta sutilmente. Dois deles tornam-se suas vítimas: Adalberto, um motorista que passa a sonhar com ela todas as noites, sendo lentamente drenado até morrer; Marcos Paulo, colega de trabalho cuja mente frágil sucumbe ao desejo e à culpa, levando-o à loucura. A súcubo observa tudo com frieza, consciente de que os humanos são facilmente manipuláveis por seus próprios impulsos. Ao final, ela percebe o interesse crescente do novo porteiro da fábrica — jovem, ingênuo e cheio de vida — e decide que talvez seja hora de escolher sua próxima presa.

20) “O Silvo do Jaraguá” escrito por HELOYSA GALVÃO: O narrador é o Jaraguá, uma criatura monstruosa que se esconde por trás da fantasia usada nas apresentações do tradicional Boi de Reis. Embora pareça apenas um boneco folclórico com cabeça de cavalo e corpo de tecido colorido, ele é, na verdade, um ser predador que se alimenta do medo — especialmente o medo das crianças. Durante a festa na pequena cidade de Pedro Velho, o Jaraguá dança entre os brincantes, invisível aos olhos dos adultos, mas perfeitamente visível para os pequenos, que percebem sua verdadeira natureza. Ele observa um menino chamado Rael, aterrorizado pela criatura, agarrado à saia da mãe, que não entende o pavor do filho e o repreende por “fazer escândalo”. Quando a apresentação termina e a multidão se dispersa, o Jaraguá segue a família até em casa, passando despercebido pelos adultos. Rael tenta se proteger, mas a mãe apaga a luz do quarto, ignorando seus pedidos desesperados. No escuro, a criatura se aproxima, atraída pelo medo intenso do menino — sua fonte de alimento. O conto termina com o Jaraguá finalmente atacando Rael, consumindo o terror que o garoto acumulou durante toda a noite, cumprindo seu papel como entidade que vive da energia emocional das crianças que o temem.

21) “Os Lobos Também Pensam” escrito por GABRIEL DA COSTA: O narrador é um predador selvagem — um animal inteligente, feroz e solitário — que descreve sua caçada noturna com precisão instintiva. Ele persegue um homem que invade seu território, observando-o com paciência até o momento perfeito para atacar. A perseguição termina de forma brutal, e o narrador sacia sua fome. Quando está prestes a partir, ele ouve o choro de um bebê vindo de uma casa próxima. Movido pela curiosidade e pelo instinto, invade o local. Ao ver o bebê, hesita: lembra-se de seu antigo dono humano, Brian, que o criou, mas também o maltratou. Essa memória desperta nele uma mistura de ressentimento e reflexão. O bebê sorri para a criatura, e isso o faz reconsiderar. Em vez de atacá-lo, o narrador decide levá-lo consigo. Para ele, o bebê ainda não carrega a crueldade dos humanos adultos — mas um dia carregaria, se permanecesse entre eles. Assim, resolve criá-lo à sua maneira, ensinando-o a sobreviver e a rejeitar a humanidade. O conto termina com o predador acolhendo o bebê como seu novo companheiro, dando-lhe o nome de Brian, numa inversão irônica e sombria de seu passado.

22) “Fraternidade Sangrenta” escrito por LINDEVANIA MARTINS: Uma série de mortes brutais assombra uma vila: corpos são encontrados com o abdômen aberto e sem entranhas. A população foge, restando apenas Ana — a narradora — e alguns sobreviventes que se refugiam na sede da fazenda do velho proprietário, recentemente morto. Ana assume a liderança do grupo e planeja capturar a criatura responsável pelos ataques, acreditando que isso consolidaria seu poder. Durante a noite, surge Jonas, o filho desaparecido do velho. Apesar da desconfiança de Ana, ele é acolhido pelos outros. Pouco depois, porém, os gêmeos que ajudavam na emboscada são encontrados mortos da mesma forma que as vítimas anteriores. Jonas aparece ferido e confuso, mas Ana percebe algo estranho: a lâmina usada pelos gêmeos contém um resíduo que revela que eles feriram a criatura. A partir daí, tudo se encaixa. Jonas é, na verdade, o monstro responsável pelas mortes — um ser capaz de se transformar em uma criatura feroz. Ele revela que o pai o mantinha escondido e alimentado com animais, e que, após a morte do velho, ficou sem controle e sem comida. Jonas também afirma que Ana é como ele: ambos são monstros, irmãos de sangue e de natureza. Ana confirma sua própria monstruosidade ao beber sangue e se transformar. Os dois se encaram como predadores rivais. Na fazenda isolada, não há espaço para ambos. O conto termina com Ana e Jonas travando um combate mortal — e Ana vencendo, devorando o irmão para garantir sua sobrevivência como a única criatura dominante daquele território.

23) “O Lobisomem na Cozinha” escrito por WALTER SILVA: O narrador relembra a cozinha da casa da avó, um lugar comum durante o dia, mas que sempre o aterrorizou à noite desde a infância. Mesmo adulto, após voltar para morar com a avó devido a problemas pessoais, ele continua evitando atravessar os corredores escuros para beber água ou ir ao banheiro, recorrendo a subterfúgios para não enfrentar o ambiente que sempre lhe causou ansiedade. Numa madrugada fria, porém, ele é obrigado a ir até a cozinha. O ambiente está iluminado apenas pelo luar, criando sombras inquietantes. Ao abrir a geladeira, um cheiro pútrido invade o ar. Ele se vira — e vê, refletida no espelho do banheiro, uma criatura enorme, peluda, de focinho canino, olhos amarelos e postura ameaçadora, como se sempre tivesse estado ali. A besta parece reconhecê-lo e tenta emitir sons que lembram palavras humanas. No tornozelo da criatura, ele nota algo perturbador: o escapulário de São Jorge que sua avó lhe dera. Antes que consiga reagir, o medo o domina e ele desmaia, envolto pela escuridão.

24) “A Velha no Telhado” escrito por SIMONE PAULINO: A narradora é uma pisadeira, uma criatura folclórica que se alimenta do medo das crianças durante a noite. Ela vive nos telhados, observando famílias e entrando nos quartos quando todos dormem. Em uma casa específica, ela passa a acompanhar a rotina de um menino de oito anos e sua mãe. O garoto sofre de terrores noturnos e afirma ver “a velha” em seu quarto — a própria pisadeira — mas a mãe não acredita. A criatura gosta do menino: aprecia suas histórias, sua imaginação e até sua companhia silenciosa. Assustá-lo é, para ela, uma forma de se aproximar e se alimentar. No entanto, tudo muda quando o novo namorado da mãe começa a visitar a casa. O menino tenta avisar que o homem o assusta, mas a mãe ignora, achando que é mais uma fantasia. Uma noite, a pisadeira chega ao quarto e encontra o homem lá antes dela. Percebendo que ele representa um perigo real, muito maior do que qualquer monstro folclórico, ela intervém. Ataca o homem, o expulsa e expõe sua verdadeira natureza para a mãe, que finalmente entende que algo terrível estava acontecendo. Depois disso, o namorado desaparece da rotina da casa. A pisadeira continua no telhado, mas passa a visitar o menino não para assustá-lo, e sim para ouvir suas histórias. Ele já não teme sua presença — e ela, pela primeira vez em séculos, descobre um tipo diferente de vínculo.

25) “Predador e Presa” escrito por PEDRO COPPOLA: O conto narra a história de um homem ambicioso que, movido pela cobiça, faz um pedido a uma entidade antiga: Baal Zebub, o Senhor das Moscas. Atendendo ao chamado, o deus envia um de seus “filhos”, uma criatura parasita em forma de inseto monstruoso, que invade o corpo do suplicante e passa a controlá-lo por dentro, mantendo o cérebro consciente e preso enquanto assume sua vida. Com a ajuda de outros servos de Baal Zebub, o parasita garante fortuna e conforto ao hospedeiro. Mas falta cumprir o último desejo: a fama. Para isso, a criatura começa a atrair mulheres, usando o corpo do homem como isca. Cada vítima é contaminada por larvas que se alojam em sua carne, transformando-as em incubadoras de novos monstros. Quando a criatura escolhe sua terceira vítima — uma mulher chamada Ariana — algo inesperado acontece. Ela não reage como as outras. Em vez de sucumbir, revela-se uma entidade ainda mais antiga e poderosa: uma aranha monstruosa, conhecida em eras passadas como Ariadne, inimiga natural dos filhos de Baal Zebub. Ariana mata o hospedeiro e captura o parasita, revelando que sua missão é caçar e destruir as criaturas do Senhor das Moscas. Sua filha, Enya, também sobrevivente de um ataque anterior, junta-se a ela. Juntas, mãe e filha seguem caçando esses seres em São Paulo, planejando um dia enfrentar o próprio Baal Zebub.

26) “Pássaro Negro” escrito por LETÍCIA MEDEIROS: Lázara, desde jovem, rejeita a vida comum que lhe era imposta e busca poder por meio da magia. Após receber moedas de ouro e manuscritos antigos de um misterioso nobre, ela passa a estudar ocultismo em segredo. Descoberta durante um ritual, é internada em um hospício, onde passa meses dopada e submetida a tratamentos brutais. Lá, conquista a confiança de uma enfermeira, Cláudia, que também conhece magia e se torna sua cúmplice. Com o tempo, Lázara recupera suas forças, pratica rituais em segredo e usa outros internos como “experimentos”. Seu objetivo final é realizar o Ritual do Solo Sagrado, que exige sacrifícios humanos. Manipulando Cláudia e o diretor do hospício, Dr. Arthur Stein, ela executa o ritual, sacrificando a própria enfermeira. O solo absorve o corpo e faz brotar um cedro mágico, marcando o local como território de poder. A partir daí, Lázara assume controle do hospício, manipula mentes e realiza novos sacrifícios, fortalecendo-se e mantendo o Solo Sagrado ativo. Ela permanece ali por décadas, rejuvenescida pela magia, aguardando o momento de completar sua obra. Quando dois jovens gêmeos, Ana e Henrique, são internados, ela os escolhe como as vítimas finais — símbolos de Pureza e Corrupção — para selar definitivamente seu domínio. No entanto, o conto revela que Lázara nunca foi a verdadeira senhora daquele poder. O manuscrito e as moedas que recebeu eram parte de um pacto com Mammon, o Príncipe do Inferno e devorador de almas. Ele observa tudo, alimenta-se das mortes e, ao final, consome também Lázara, que acreditava estar no controle. Para Mammon, ela foi apenas mais uma alma ambiciosa que se ofereceu voluntariamente ao aceitar o pacto.

27) “A Ilha dos Degenerados, Fuja Enquanto Há Tempo” escrito por FÁBIO LUIZ DE SOUZA: O narrador, hoje uma criatura deformada e isolada, relembra como sua vida foi destruída trinta anos antes, quando ainda era um jovem investigador a serviço da polícia inglesa. Ele, o sargento Kane e o investigador Johnson foram enviados à temida Ilha Menson, um presídio de segurança máxima cercado de rumores sobre mutações e experimentos proibidos. Logo na chegada, Kane é morto por um tiro vindo da mata. O remador, estranhamente calmo, afirma que “degenerados” fugidos da prisão atacam embarcações. Mesmo assim, o narrador insiste em continuar a missão. Na ilha, eles são recebidos pelo Dr. Carter, diretor do presídio, um psiquiatra de comportamento inquietante. Durante dias, os investigadores percorrem o local e encontram presos mutilados, transtornados, em choque ou com ferimentos inexplicáveis. Carter justifica tudo como “brigas” ou “efeitos do confinamento”. Quando o narrador anuncia que reportará os abusos às autoridades, Carter serve um chá. Horas depois, o narrador percebe que foi drogado. Johnson desaparece. Ele desmaia. Acorda acorrentado no subterrâneo da prisão — o verdadeiro laboratório de Carter. Ali, testemunha horrores indescritíveis: presos dissecados, híbridos de humanos com animais, siameses criados artificialmente, corpos mutilados e experimentos genéticos grotescos. Johnson está vivo, mas sem braços e pernas, delirando. Carter revela sua filosofia: todos têm monstros dentro de si, e ele apenas os liberta. O narrador é torturado por anos, transformado em um híbrido de homem-peixe, com nadadeiras no lugar das mãos, escamas e cauda. Ele tenta fugir, vive escondido na mata, mas sempre é recapturado. Quando o Exército Real finalmente invade a ilha, Carter é preso e condenado à morte. Os sobreviventes — agora criaturas irreconhecíveis — são enviados ao Asilo Bartlan, um local subterrâneo isolado do mundo, onde são mantidos sob vigilância militar. O narrador conclui que não há liberdade para ele ou para os outros transformados. Presos em corpos monstruosos, trancados em um aquário, resta-lhes apenas a pergunta final: Quem são os verdadeiros monstros — eles ou os humanos que os criaram?

28) “Monstro, Eu” escrito por J. F. DELL: O conto descreve um mundo distópico onde seres criados por engenharia genética, chamados de “monstros”, vivem sob rígido controle, segregação e preconceito após uma revolta histórica fracassada liderada por um espécime inteligente chamado Zumbi. O narrador é um desses seres, identificado pelo código AYQ356-T-67, que vive uma rotina humilhante e solitária, trabalhando em tarefas servis em um escritório e vestindo um terno mal ajustado para tentar se integrar minimamente à sociedade humana. A história detalha o passado dessas criaturas, que foram originalmente projetadas para servidão e trabalhos perigosos (como desarmamento de bombas e limpeza de fossas), sendo tratadas como objetos descartáveis. A situação mudou quando surgiu uma linhagem inteligente, capaz de raciocinar e organizar uma rebelião global que quase dizimou a humanidade. Após a vitória humana, os sobreviventes foram caçados e os novos “híbridos” — resultado de anomalias ou cruzamentos — passaram a viver sob vigilância constante do Departamento de Polícia de Caça às Criaturas (DPCC). No ambiente de trabalho, o protagonista é alvo de chacota e isolamento, encontrando algum tipo de conexão apenas com Lucio, um funcionário humano que também parece deslocado e ignorado pelos colegas. Durante um almoço tenso, Lucio questiona o narrador sobre sua condição e afirma que a verdadeira monstruosidade está naqueles que não suportam o diferente. Ele desafia a passividade do protagonista, lembrando-o de que monstros são mais fortes e inteligentes do que a sociedade permite que demonstrem. O desfecho revela uma reviravolta: Lucio não é humano, mas sim um híbrido de uma série camaleônica avançada, capaz de disfarçar perfeitamente sua aparência escamosa e reptiliana. Ele revela ao narrador sua verdadeira linhagem: ele seria o filho desaparecido de Zumbi, o líder da revolução original. Ao reconhecerem sua identidade e poder, ambos abandonam os disfarces e a servidão, iniciando um massacre violento no escritório e sinalizando que os monstros inteligentes estão de volta para retomar a luta pela sobrevivência de sua espécie.

CONCLUSÃO: “Eu, Monstro” é uma obra 100% nacional. Cada conto entrega o microfone ao próprio monstro, porque aparentemente olhar o horror de frente não era suficiente; agora precisamos ouvi‑lo narrar a própria miséria com toda a calma do mundo. O resultado é uma leitura que, em pelo menos um conto, agradará o leitor. A escrita é direta e, quando precisa, brutal. Cada autor segue seu próprio ritmo, mas todos acabam esbarrando na mesma pergunta incômoda que insiste em ecoar quando se fecha a última página: afinal, quem é o verdadeiro monstro aqui?


Compartilhe

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *