
Demorei bastante até finalmente me dedicar à leitura de “O Iluminado”. A obra é uma exploração complexa do conceito de assombração — tanto no sentido literal, com fantasmas, quanto no simbólico, ao mostrar como o passado continua a influenciar e ecoar no presente. “O Iluminado” é a história de Jack Torrance do começo ao fim: acompanhamos os fantasmas do Hotel Overlook e os fantasmas de seu próprio passado conspirando para levá-lo a uma espiral rumo à loucura.
Já “Doutor Sono” é a história de Danny Torrance. Embora Danny seja essencial para a tensão de “O Iluminado”, oferecendo acesso aos pensamentos de Jack e Wendy, ele não é o protagonista. No primeiro livro, ele é a criança inocente arrastada pelo colapso mental do pai. Em “Doutor Sono”, acompanhamos a evolução natural desse cenário: Danny agora enfrenta seus próprios fantasmas e o peso de suas habilidades, lutando para não repetir o destino de seu pai.
“Doutor Sono” é um romance mais amplo do que “O Iluminado”. Enquanto o primeiro livro retrata de forma íntima a desintegração de uma família, a continuação aprofunda a compreensão sobre o “Dom” e suas implicações — inclusive os perigos que ele traz.
A introdução do Verdadeiro Nó, um grupo perturbador de vampiros psíquicos que se alimenta da dor de pessoas com o Dom, é interessante. Um momento a ser lembrado ocorre, quando o grupo, do outro lado do rio em Nova York, absorve o “vapor” das vítimas do 11 de setembro, evidenciando o quanto sua imortalidade custou a humanidade que um dia tiveram. Danny, agora adulto, está distante do menino que conhecemos anteriormente: recorre ao álcool e às drogas para amortecer suas habilidades, e seu vício é agravado pela herança de fúria dos Torrance.
O romance também dedica grande atenção ao tema do vício e da recuperação. Assim, “Doutor Sono” incorpora fortemente a filosofia do programa AA (Alcoolicos Anônimos), acompanhando Danny em sua busca por sobriedade. É um caminho muito diferente do de Jack, e a clareza que Danny conquista o ajuda a aceitar, ao menos parcialmente, suas habilidades. Sua convivência precoce com a morte no Overlook o torna, de certa forma, preparado para o papel que assume na vida adulta: alguém que auxilia doentes e idosos a terem uma passagem tranquila.
Apesar de “O Iluminado” se passar em um hotel enorme, há nele uma sensação constante de claustrofobia e opressão. “Doutor Sono”, embora explore medos profundos — especialmente por meio do passado conturbado de Danny e do grupo itinerante de imortais que caça crianças — não alcança o mesmo nível de sufocamento psicológico ou surrealismo. Por isso, os dois livros têm atmosferas muito distintas, algo que também se reflete na forma como Danny e Jack lidam com seus vícios. A solidão que permeia “O Iluminado” não está presente em “Doutor Sono”, e a rede de apoio que Danny encontra traz ao romance um tom mais esperançoso, suavizando a melancolia que dominava a história de Jack.
Danny também assume um papel paternal semelhante ao que Dick Hallorann teve para ele. A chegada de Abra Stone, uma menina extremamente poderosa, o coloca na posição de mentor, repetindo o ciclo vivido no Overlook. Abra Stone atrai o interesse do Verdadeiro Nó da mesma forma que Danny atraiu o do hotel, e Danny a ajuda assim como Dick o ajudou. “Doutor Sono” é, essencialmente, um romance sobre ciclos que se fecham. Ele encara o passado não como algo a ser apagado, mas como parte fundamental da jornada. Não se trata de esquecer ou superar, mas de integrar o que houve — dor, horror e tudo mais — para seguir adiante de forma inteira.
A mensagem é forte e transmitida sem sentimentalismo excessivo, funcionando como uma conclusão natural para a saga da família Torrance. Para quem apreciou “O Iluminado”, a leitura de “Doutor Sono” é praticamente indispensável.
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