
Como começar a descrever “As Sete Mortes de Evelyn Hardcastle”? Talvez dizendo que Stuart Turton acordou um dia, olhou para um romance policial clássico, olhou para o filme “Feitiço do Tempo” (1993), tomou um café forte demais e pensou: “e se eu misturasse tudo isso e deixasse o leitor completamente desorientado?”. O resultado é este livro — um labirinto literário onde você entra achando que vai resolver um assassinato e sai questionando sua própria identidade.
A história começa com nosso protagonista correndo pela floresta, no escuro, desesperado para salvar uma tal de Anna — que ele não conhece, você não conhece, ninguém conhece — enquanto um assassino está à solta. Até aí, tudo bem. O problema é que ele também não sabe quem ele próprio é. Ele olha para as mãos e percebe que são de outra pessoa. Parabéns, leitor: você acaba de entrar no inferno temporal de Blackheath.
Ele encontra abrigo na mansão decadente, descobre que está no corpo do Dr. Sebastian Bell e, no dia seguinte, acorda em outro corpo. E depois outro. E outro. E outro. O homem troca de avatar mais do que jogador viciado em RPG. Cada dia, uma nova pessoa. Cada pessoa, um novo problema. E tudo isso para descobrir quem vai matar Evelyn Hardcastle naquela noite. Se falhar, perde a memória e começa tudo de novo. É tipo um “Detetive” de tabuleiro, só que possuído pelo demônio da complexidade.
E aí vem o charme perverso do livro: Aiden Bishop, nosso protagonista, é o típico “cara normal” jogado numa situação absurda. Ele não sabe nada, você não sabe nada, e os dois vão tropeçando juntos pela história como dois bêbados tentando montar um quebra-cabeça de 5.000 peças.
Cada corpo que ele habita tem suas vantagens e desvantagens. Lorde Ravencourt, por exemplo, é tão obeso que subir escadas vira um evento olímpico, mas tem uma mente brilhante. Rashton é um policial jovem e atlético, ótimo para correr atrás de pistas e fugir de problemas. Dance tem status social, conexões e aquele ar de “eu mando aqui”. É como jogar “The Sims”, só que com assassinato e crise existencial.
E o livro é cheio de coisas estranhas. MUITAS. Mas, milagrosamente, tudo faz sentido no final. Turton amarra cada detalhe como se tivesse oito cérebros trabalhando simultaneamente — o que, considerando o enredo, não seria surpresa.
Aiden nunca sabe em quem confiar. Você também não. Cada vez que ele encontra alguém que parece aliado, a pessoa vira a casaca, desaparece, mente, trai ou simplesmente enlouquece. É maravilhoso. Você passa o livro inteiro desconfiando até da mobília.
E quando você acha que entendeu tudo… o livro te dá uma rasteira. E depois outra. E mais uma, só para garantir que você não vai levantar tão cedo. O final é tão surpreendente que você fica olhando para a parede por alguns minutos, repensando sua vida.
Agora, sejamos honestos: é um título trabalhoso. Não é livro para ler no ônibus, nem para largar por uma semana e retomar achando que vai lembrar quem é quem. Não vai. Tem tantos personagens com nomes começando com D que parece uma convenção de Darcys, Daniels e Dorothys. Você vai folhear páginas para frente e para trás como se estivesse estudando para uma prova.
Mas vale a pena? Vale. Muito! O livro reinventa o romance policial com uma ousadia deliciosa. Joga fora os clichês, destrói as regras, reconstrói tudo de um jeito completamente novo e ainda faz você agradecer pela confusão. É longo? É sim – com suas quase 500 (quinhentas) páginas – mas você devora os capítulos finais como se estivesse faminto.
No fim, “As Sete Mortes de Evelyn Hardcastle” é aquele tipo de leitura que te deixa exausto, confuso, maravilhado e ligeiramente traumatizado — mas no melhor sentido possível. É um quebra-cabeça literário que te desafia e te recompensa. E, convenhamos, é raro um livro te fazer sentir inteligente e burro ao mesmo tempo.
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