Resenha | Ainda Estou Aqui de Marcelo Rubens Paiva

“Ainda Estou Aqui”, de Marcelo Rubens Paiva, é um livro que parte de uma experiência familiar devastadora para reconstruir um período histórico que o Brasil insiste em tratar como assunto secundário. Paiva revisita a trajetória de sua mãe, Eunice Paiva, e o desaparecimento de seu pai, Rubens Paiva, sequestrado pela ditadura militar, e faz isso com uma combinação de memória pessoal e investigação que dá ao texto um ritmo próprio.

O autor revisita a infância, a adolescência e a vida adulta com um olhar que alterna ironia, dor e uma certa incredulidade diante do absurdo institucionalizado da época. Ele não tenta transformar a própria família em monumento; ao contrário, expõe contradições, falhas, momentos de humor inesperado e episódios que revelam como a vida cotidiana continuava, mesmo quando tudo ao redor parecia ruir. Essa escolha mostra que a história não é feita apenas de grandes eventos, mas também de pequenos episódios que revelam o impacto real da violência política.

A figura de Eunice é central. Paiva retrata sua mãe como alguém que, diante de uma tragédia irreparável, se recusa a desaparecer junto com o marido. Ela se envolve com política, luta por direitos, enfrenta instituições e, ao mesmo tempo, tenta manter a família funcionando. O autor não a transforma em símbolo; ele a apresenta como alguém que precisou lidar com responsabilidades gigantescas enquanto ainda tentava entender o que havia acontecido com o marido. Essa abordagem torna a leitura mais rica.

O livro também funciona como uma espécie de acerto de contas com a memória nacional. Paiva revisita documentos, depoimentos e versões oficiais que, por décadas, tentaram encobrir o que realmente aconteceu. Ele desmonta essas versões com paciência e ironia, mostrando como a burocracia estatal foi capaz de produzir absurdos. Ao mesmo tempo, revela como a falta de responsabilização permitiu que muitos dos envolvidos seguissem suas vidas sem qualquer consequência.

A escrita de Paiva é ágil, sarcástica em vários momentos e, ao mesmo tempo, profundamente marcada por uma experiência pessoal que ele não tenta esconder. Alterna registros — ora mais íntimos, ora mais históricos — sem transformar o livro em um tratado acadêmico. O resultado é um texto que se lê com fluidez, mas que deixa claro o peso do que está sendo contado.

“Ainda Estou Aqui” funciona como memória familiar, documento histórico e reflexão sobre um país que ainda não resolveu seu passado. Paiva não tenta dar respostas e nem transformar a própria dor em espetáculo; ele reconstrói uma história que, embora seja particular, dialoga com uma ferida coletiva que o Brasil insiste em empurrar para o canto. É um livro que convida o leitor a encarar esse passado sem filtros e sem a ilusão de que tudo ficou para trás.

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