Resenha | 1/4 de Face de Mattie Rocha

O livro, “1/4 de Face”, de Mattie Rocha, publicado pela Editora Hope, começa como um drama juvenil relativamente normal: Allan faz 18 anos, finalmente engata um namoro com a melhor amiga, Karin, e tudo parece encaminhado para aquele romance adolescente cheio de promessas. Aí o pai dele liga. Marcus, o pai que o abandonou antes de nascer. O pai que, segundo a mãe, tentou matá-lo ainda na barriga como parte de um ritual de poder.

Depois da ameaça, Allan entra em choque e acorda numa casa vazia e escura. Surge então Baltazar, um ser arrogante, cruel e aparentemente fã de tortura física, que depois revela que – vejam só – precisa da ajuda de Allan. É sempre assim: primeiro te espancam, depois pedem favores.

A situação piora quando Marcus sequestra Karin e arrasta Allan para uma caverna. Lá, Marcus atira nela, mas uma velha misteriosa chamada Ruth aparece do nada, devolve a bala para Allan como se fosse um souvenir e Marcus é derrotado. A partir daí, o livro decide que já foi realista demais e revela que Ruth e Baltazar são irmãos de uma raça superior que manipula espaço e tempo como quem mexe no brilho do celular.

Esses seres estão sendo caçados por outros da mesma espécie por causa do “Quarto de Faces”, uma sala onde guardam essências de criaturas de várias realidades — basicamente um depósito interdimensional de almas. Para ajudar Baltazar, Allan precisa absorver uma dessas essências, o que o joga num universo paralelo onde conhece Ilastér, um ser poderoso, rancoroso e preso injustamente. Porque claro que Allan não podia só ganhar músculos e um novo corte de cabelo; ele precisava de um demônio extradimensional como “colega de quarto”.

Enquanto isso, Karin recebe a visita de Lee, um garoto que a guia em viagens astrais. E, como se a trama já não estivesse suficientemente caótica, descobrimos que Karin trabalhava para Ast, inimigo de Baltazar, desde o início. Ela mata Allan com a ajuda de Lee — o que, neste livro, é só mais uma terça‑feira — mas ele volta à vida ainda mais forte graças a Ilastér.

A partir daí, Allan abraça completamente o modo “vilão de multiverso”, movido pelo ódio após a morte da mãe cometida por Taya. Ele começa a absorver essências de inimigos, acumular poder e virar uma ameaça tão grande que até seres de planos superiores passam a monitorá-lo. Nada mal para alguém que, nas páginas iniciais, só queria namorar a melhor amiga e sobreviver ao próprio pai.

A trama ainda apresenta mais personagens. Cada um deles tem um papel importante, ou pelo menos importante o bastante para você pensar: “Ok, mas de onde esse aí saiu agora?”. É aquele tipo de narrativa em que, quando você acha que já decorou todos os nomes, surge mais alguém com poderes cósmicos, traumas profundos ou intenções duvidosas.

Se há um ponto fraco, é que, em alguns momentos, a velocidade dos acontecimentos e a quantidade de informações mitológicas podem sobrecarregar o leitor. A necessidade de explicar as regras do universo, as diferentes facções e as habilidades de cada personagem, por vezes, interrompe o fluxo mais emocional da narrativa. Mas essa é uma aposta clara do autor: a de que o leitor está ali para embarcar na “maluquice”, como ele mesmo avisa na introdução.

No fim, “1/4 de Face” é uma montanha-russa de traumas, deuses interdimensionais, traições e viagens astrais — e Allan, coitado, só queria um aniversário tranquilo.


Compartilhe

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *