Regras do Amor na Cidade Grande (por Peter P. Douglas)

            Regras do Amor na Cidade Grande (Love in the Big City AKA DaedosIUI Salangbeob, 2024), longa-metragem sul-coreano de drama romântico, distribuído pela A2 Filmes, estreia, oficialmente, nos cinemas brasileiros, a partir do dia 10 de abril de 2025, com classificação indicativa 14 anos e 118 minutos de duração, baseado no romance do autor sul-coreano Sang Young Park.

            Ambientado em Seul, na Coreia do Sul, o filme segue dois estudantes universitários, Jae-hee (Kim Go-eun) e Heung-soo (Steve Sanghyun Noh), que acabam se tornando melhores amigos inesperadamente. Jae-hee é despreocupada e espontânea, não liga para a opinião alheia e fala francês fluentemente, graças a um período que passou na Europa. Por outro lado, Heung-soo é reservado, carrega um segredo e se preocupa muito com o que os outros pensam. Eles são uma dupla improvável, mas com grande potencial.

            Acompanharemos esses amigos improváveis enquanto enfrentam a jornada pela universidade e os desafios dos grandes eventos da vida, lidando com uma cultura que não os aceita facilmente. Ser amigos de gêneros diferentes gera constantes dúvidas sobre a natureza da relação. Com tudo isso, o filme não questiona se essa amizade vai durar, mas explora o modo como ela será sustentada.

            Trata-se de uma clássica história de amadurecimento, que pode até explorar todos os clichês possíveis, mas faz isso de maneira tão encantadora que é impossível não se apaixonar. O filme nos lembra que ninguém, especialmente mulheres jovens, precisam se moldar a padrões para ser amada ou valorizada. Também serve como um recado importante para jovens queer: há pessoas como você no mundo, e você merece amor. Embora o caminho seja difícil, o amor só começa quando você se ama primeiro.

            A trama ganha ainda mais força por se passar em uma cultura com expectativas muito diferentes das que estamos acostumados a ver em filmes ocidentais, pois fica evidente que se trata de uma sociedade conservadora demais para aceitar pessoas diferentes. Além disso, o humor do filme é um destaque, surpreendendo com momentos hilários que tornam a história e os personagens ainda mais cativantes.

            E mais do que isso: a história só conseguiu me envolver completamente graças aos dois personagens principais.

            Heung-soo é extremamente fechado, carregando o medo constante do que pode acontecer caso sua verdade seja exposta. Isso levanta a questão: por quanto tempo é possível viver uma vida baseada em mentiras, e será que essa vida vale a pena? Jae-hee, por sua vez, inicialmente encara a vida de forma despreocupada, mas logo percebe que as escolhas têm consequências inevitáveis. A química entre Kim Go-eun e Steve Sanghyun Noh contribui muito para a dinâmica dos personagens, funcionando de maneira natural e sem sobrecarregar a narrativa. No início, Jae-hee parecia superficial, no entanto, a partir de um ponto crucial no filme, ela revela o motivo de sua complexidade ser difícil de captar, e tudo começa a fazer sentido.

            Uma das grandes qualidades do longa é a forma como demonstra, ao invés de apenas narrar, os motivos que tornam esses dois personagens amigos. Em uma cena marcante, eles têm uma discussão intensa, na qual ambos apresentam argumentos válidos, e você realmente acredita que a amizade chegou ao fim. No entanto, o modo como eles se reconciliam é emocionante e genuíno, demonstrando o verdadeiro valor da amizade. A troca de perguntas simples entre eles transmite o cuidado e a preocupação que sentem um pelo outro, tornando tudo ainda mais real.

            É evidente que o filme tem suas raízes em um livro, pois os personagens e suas caracterizações possuem uma profundidade que ultrapassa o limite de duas horas de duração do filme. No entanto, isso também traz a sensação de que algumas dinâmicas de relacionamento foram apressadas.

            O terceiro ato do filme se destaca como o mais fraco, devido ao uso excessivo de artifícios — o melodrama é tão intenso que lembra um filme de Bollywood. Mas o interessante é como, nesse momento, há uma referência direta a “Me Chame Pelo Seu Nome” (2017).

            Um aviso importante: embora o filme seja, em grande parte, leve, ele aborda momentos sombrios, incluindo referências a tentativas de suicídio e episódios de violência motivada por ódio e gênero. Esses temas não são predominantes, mas a obra não hesita em enfrentar essas duras realidades vividas por mulheres e pessoas queer.

            Embora a trama não seja das mais originais, há muitos aspectos encantadores que merecem destaque. A cinematografia deslumbrante de Hyoungju Kim brilha com cores vibrantes nos clubes, enquanto adota um tom mais realista nas cenas do cotidiano, tanto em casa quanto no trabalho. A trilha sonora é cativante, repleta de músicas coreanas maravilhosas, e as atuações carismáticas de Kim Go-eun e Steve Sanghyun Noh dão vida à história.

            Em resumo, “Regras do Amor na Cidade Grande”, narra uma jornada de amadurecimento e autodescoberta, trazendo uma narrativa doce e encantadora sobre o verdadeiro significado de uma boa amizade.

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