Pele de Vidro (por Peter P. Douglas)

Pele de Vidro (Skin Of Glass, 2025), longa-metragem documental, coprodução Brasil e EUA, distribuído pela Autoral Filmes, estreia, oficialmente, nos cinemas brasileiros, a partir de 19 de março de 2026, com classificação indicativa 10 anos e 89 minutos de duração.

“Pele de Vidro” começa como aquela história clássica: em 2017, filha volta ao Brasil – depois de duas decádas morando nos EUA – querendo fazer um documentário sensível sobre o pai arquiteto, cheio de memórias, poesia e planos modernistas… e acaba trombando de frente com a realidade brasileira, que não está nem aí para nostalgia. Denise Zmekhol só queria revisitar os prédios projetados pelo pai, Roger Zmekhol (1928-1976). Mas, ao encontrar um edifício tombado com mais de 100 famílias morando dentro, ela percebeu que seu filme “sobre legado” viraria, um filme “sobre caos urbano”.

O prédio em questão, construído entre 1961/1968, é o Wilton Paes de Almeida, um arranha-céu modernista de vidro no centro de São Paulo — lindo, icônico e, claro, completamente abandonado, porque nada diz “Brasil” como patrimônio histórico largado às traças. Resultado: depois de ter sido sede da Polícia Federal e quase ter virado um centro cultural, tornou-se local de pixação e moradia para dezenas de famílias invasoras, porque a crise habitacional paulistana é tão grande que até prédio tombado entra na fila.

E aí vem o plot twist trágico: um incêndio em 2018, mata 11 moradores e põe fim ao prédio (deixando apenas os escombros). Após a tragédia, Denise passa semanas conversando com sobreviventes desabrigados do incêndio. Denise, que só queria fazer um filme bonitinho sobre o pai, de repente se vê no meio do que sobrou de uma ocupação, conversando com famílias que viviam ali há anos. A diretora percebe que seu documentário virou outra coisa — mais íntimo, mais político e, claro, mais brasileiro do que ela imaginava.

O filme fez Denise refletir sobre a crise habitacional — aquela que todo mundo finge que não existe, mas que está ali, gigante, ocupando prédios, calçadas e manchetes. Ela aponta o óbvio que ninguém resolve: há mais imóveis vazios do que gente sem casa. Mas, como sempre, falta “vontade política”, esse ser mitológico que ninguém nunca viu pessoalmente.

No fim, “Pele de Vidro” não é só um documentário sobre Denise e as realizações de seu pai, nem só sobre arquitetura, nem só sobre memória. É sobre gente. Sobre abandono. E, claro, sobre o Brasil — esse país onde até um prédio de vidro pode virar espelho da desigualdade.

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