
Pedaço de Mim (Mon Inséparable AKA My Everything, 2024), longa-metragem dramático francês, distribuído pela Filmes do Estação, estreia, oficialmente, nos cinemas brasileiros, a partir do dia 03 de julho de 2025, com classificação indicativa 16 anos e 94 minutos de duração.
“Quer brincar de adulto? Pense nas consequências.” Criar uma criança com deficiência é, sem dúvida, uma vocação, e o cinema tem explorado esse tema com grande sensibilidade em diversas obras. No entanto, o foco raramente recai sobre a fase em que a criança cresce e almeja sua própria emancipação. Essa transição traz novas preocupações e complexidades para a família, que a protege e a cerca. É exatamente nesse ponto que reside o cerne do primeiro longa-metragem da diretora francesa Anne-Sophie Bailly.
É um choque para Mona (Laure Calamy), uma esteticista, descobrir que seu filho de trinta anos, Joel (Charles Peccia-Galletto), que possui deficiência intelectual desde o nascimento, será pai. A mãe do bebê é Océane (Julie Froger), que também tem deficiência e trabalha com Joel na mesma instituição especializada. Os pais de Océane também ficam surpresos com a notícia, especialmente o pai, que questiona a capacidade da filha de dar consentimento informado.
Apesar de estarem apaixonados, a notícia não alivia as sérias dúvidas de Mona sobre a aptidão de Joel para a paternidade, já que ele necessita de supervisão constante e sempre foi levado a crer que seu pai vivia na Antártida. Além disso, Mona acabara de iniciar um relacionamento com um belga (Geert Van Rampelberg), o que torna a situação ainda mais avassaladora. Dividida entre seu instinto maternal superprotetor, a determinação férrea do filho (“Eu quero o bebê, é meu direito”) e seu desejo de viver sua própria vida como mulher, Mona logo explode e perde o controle da situação.
O filme, com um roteiro claro e direto escrito pela própria diretora, mantém uma distância ideal entre um tema naturalmente melodramático e a necessidade de explorar o mundo da deficiência com respeito, evitando o excesso. Ao explorar o ponto de vista da mãe, garantindo uma representação precisa do caráter do filho, Anne-Sophie Bailly demonstra com sensibilidade como a “anormalidade” nem sempre reside onde se espera.
O resultado é um belo retrato de uma mulher (“Não vou deixar você me dar sermão”), interpretada por Laure Calamy, que oferece mais uma variação do papel de “coragem materna”. Ela se prova um verdadeiro trunfo neste dinâmico e ágil longa-metragem, que muda de cenário rapidamente e torna a delicada questão social da deficiência acessível a todos, sem ser científica ou naturalista, mas simplesmente humana.








