Paterno (por Casal Doug Kelly)

Paterno (2021), longa-metragem nacional dramático, distribuído pela Filmes do Estação, estreia, oficialmente, nos cinemas brasileiros, a partir do dia 07 de agosto de 2025, com classificação indicativa 12 anos e 110 minutos de duração.

Trata-se de um filme que incomoda porque não oferece saídas fáceis. O diretor Marcelo Lordello constrói um retrato denso e claustrofóbico de um homem em crise, mas não é uma crise qualquer — é a crise de alguém que está no centro de um sistema que está ruindo, mas que ele mesmo ajudou a sustentar.

Sérgio, vivido por Marco Ricca, é arquiteto, empresário, filho de um patriarca moribundo e pai de um adolescente que já não se reconhece nele. Ele está no meio de duas gerações, e não consegue se conectar com nenhuma.

O filme se passa em Recife, e a cidade não é só cenário — ela é parte do conflito. A especulação imobiliária, a gentrificação, os embates de classe e raça estão todos ali, atravessando a narrativa. Sérgio comanda, com o irmão, uma empresa que quer incorporar uma área popular, e isso já diz muito sobre o lugar que ele ocupa. Mas o que o filme faz de interessante é mostrar que, mesmo com poder e dinheiro, ele está preso. Preso ao legado do pai, às expectativas da masculinidade tradicional, à incapacidade de se reinventar.

A câmera acompanha Sérgio de perto, quase sufocando. Os planos são fechados, os ambientes são escuros, e há uma sensação constante de desgaste. O ritmo é lento, propositalmente arrastado, como se o tempo estivesse empurrando o personagem para um abismo que ele finge não ver. A montagem reforça essa tensão, cortando momentos que poderiam humanizá-lo, deixando o espectador sempre em dúvida sobre o que ele sente — ou se sente algo.

O filme não tenta fazer de Sérgio um vilão nem um herói. Ele é um homem que perdeu o fio da própria história. Há momentos em que ele tenta se reconectar com o passado — como quando visita a universidade ou escuta discos antigos — mas tudo parece superficial, como se ele estivesse encenando uma versão de si mesmo que já não existe. E isso é o que torna o filme tão potente: ele não busca redenção, só exposição.

As metáforas são muitas, e algumas até óbvias — como o trânsito em que Sérgio fica preso enquanto o filho sai andando, ou as portas fechadas da casa que o isolam. Mas elas funcionam porque fazem parte de um universo simbólico que o filme constrói com coerência.

No fim, “Paterno” é sobre um homem que representa um modelo que está morrendo, mas que ainda resiste. É sobre o patriarcado, sim, mas também sobre a dificuldade de abrir mão do controle, de aceitar que o mundo mudou e que talvez não haja mais lugar para ele. O filme não oferece catarse, só desconforto. E às vezes, é exatamente disso que o cinema precisa.

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