Ovnis, Monstros e Utopias: Três Curtas Queer (por Peter P. Douglas)

Ovnis, Monstros e Utopias: Três Curtas Queer (2024), longa-metragem português de ficção-cientifica, distribuído pela Filmes do Estação, estreia, oficialmente, nos cinemas brasileiros, a partir do dia 10 de julho de 2025, com classificação indicativa 16 anos e 82 minutos de duração.

Trata-se de uma experiência cinematográfica que propõe uma constelação de desejos, medos e identidades em trânsito, reunindo três curtas portugueses – de produtoras diferentes – que se entrelaçam por meio da vivência queer e da experimentação. Cada obra, embora distinta em tom e abordagem, contribui para um mosaico narrativo que explora o corpo, o espaço e a subjetividade com coragem e sensibilidade.

“Entre a Luz e o Nada”, dirigido por Joana de Sousa, é talvez o mais contemplativo dos três. O curta mergulha em uma atmosfera de techno, cosmos e solidão, onde personagens se movem como espectros em busca de conexão. A narrativa é fragmentada, quase abstrata, e aposta em uma linguagem visual que privilegia o sensorial sobre o discursivo. Há uma pulsação constante entre o desejo e o vazio, entre o movimento e a suspensão. A trilha sonora e a fotografia criam um ambiente hipnótico, mas a ausência de um arco dramático mais definido pode afastar espectadores menos acostumados à linguagem experimental. Ainda assim, há uma honestidade emocional que atravessa a obra, especialmente na forma como os corpos são filmados — não como objetos de desejo, mas como territórios de transformação.

“Sob Influência”, de Ricardo Branco, é a mais frágil do trio. A premissa — um grupo de amigxs que consome alucinógenos em uma casa isolada e passa por uma experiência estranha — tem potencial, mas a execução revela limitações. O curta parece mais um exercício escolar do que uma obra madura, com atuações pouco convincentes e uma estética que não se sustenta. A tentativa de criar tensão e ambiguidade se perde em diálogos artificiais e uma direção que não consegue imprimir ritmo ou profundidade. A personagem central, Laura, é envolta por uma natureza que deveria ser ameaçadora ou reveladora, mas o resultado é uma apatia narrativa que compromete o impacto. O curta não é desprovido de ideias, mas carece de refinamento e de uma perspectiva mais clara sobre o que deseja comunicar.

“Uma Garota (Rapariga) Imaterial”, de André Godinho, é o ponto alto da sessão. A história de Tiago, que encontra João — uma figura mutável, que desafia as categorias de idade, gênero e aparência — é uma fábula queer que mistura fantasia, crítica social e romance com delicadeza e inventividade. A direção é segura, os planos são belos e há uma pulsão sexual e afetiva que atravessa a narrativa sem cair em clichês. João é um personagem fascinante, cuja fluidez é tratada com respeito e complexidade. O curta propõe uma reflexão sobre os preconceitos internalizados, sobre o olhar que define e limita, e sobre a possibilidade de existir fora das normas. O final, embora carregado de manifesto, não compromete a força da obra, que se sustenta como uma celebração da liberdade e da imaginação.

Como conjunto, “Ovnis, Monstros e Utopia” é desigual, mas não incoerente. A curadoria poderia ter sido mais criteriosa, especialmente na inclusão de “Sob Influência”, que enfraquece o impacto geral. No entanto, a proposta de reunir três gestos de cinema queer em uma sessão comercial é necessária. Há aqui uma tentativa legítima de ampliar o espaço para narrativas dissidentes, para corpos que escapam à norma, e para formas de contar histórias que não se encaixam nos moldes tradicionais. Mesmo com suas falhas, é oferecido ao público uma janela para o que o cinema pode ser quando ousa olhar para o outro com empatia e desejo de reinvenção.

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