Os Enforcados (por Peter P. Douglas)

Os Enforcados (2024), longa-metragem nacional de suspense dramático, produzido pela Gullane Filmes e distribuído pela Paris Filmes, estreia, oficialmente, nos cinemas brasileiros, a partir do dia 14 de agosto de 2025, com classificação indicativa 18 anos e 123 minutos de duração.

Trata-se de um daqueles filmes que não se contenta em apenas contar uma história — ele quer te puxar para dentro dela, te fazer cúmplice, te deixar desconfortável. A trama gira em torno de Regina e Valério, vividos por Leandra Leal e Irandhir Santos, um casal da elite carioca que decide resolver seus problemas financeiros mergulhando ainda mais fundo no lamaçal do jogo do bicho, herança da família de Valério. Só que o plano deles — matar o tio Linduarte (Stepan Nercessian) e vender a parte do negócio — é o tipo de ideia que parece brilhante por cinco minutos e depois vira um pesadelo sem fim.

O filme tem uma pegada shakespeariana bem evidente, especialmente em como a ambição e a culpa vão corroendo os personagens. Dá pra sentir a sombra de Macbeth pairando sobre Regina, que é quem realmente movimenta a trama.

Leandra Leal entrega uma personagem que oscila entre o controle e o desespero, entre a estratégia e o impulso. É difícil saber se ela está manipulando tudo ou se está sendo engolida pelas próprias escolhas — e essa ambiguidade é o que torna Regina tão fascinante.

Fernando Coimbra, que já tinha mostrado domínio do suspense em sua obra anterior, “O Lobo Atrás da Porta” (2013), volta com uma direção segura, que sabe dosar tensão e ironia. O filme tem momentos de humor ácido, quase sarcástico, que funcionam como válvula de escape para o clima pesado. E mesmo quando o roteiro escorrega um pouco na previsibilidade, a construção dos personagens e o ambiente — essa mistura de luxo decadente e violência latente — seguram a atenção.

A ambientação na Zona Oeste do Rio não é só cenário, é parte da crítica. O filme fala de uma elite corrupta que vive de contravenções socialmente aceitas, e faz isso sem precisar levantar bandeiras. A mansão inacabada do casal, por exemplo, é uma metáfora escancarada da ruína iminente, da fachada que não se sustenta. E os coadjuvantes — Irene Ravache, Stepan Nercessian, Pêpê Rapazote — ajudam a compor esse quadro de decadência e trapaça com atuações que não ficam atrás.

No fim das contas, “Os Enforcados” é um filme sobre escolhas — as erradas, as desesperadas, as que parecem inevitáveis. É sobre o que acontece quando o plano do casal não é construir uma vida juntos, mas sobreviver a ela. E nesse sentido, é um retrato bem brasileiro da tragédia, com sarcasmo, violência e uma corda no pescoço que vai apertando aos poucos.

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