Orwell 2 + 2 = 5 (por Peter P. Douglas)

Orwell 2+2=5 (2025), longa-metragem documental, coprodução Estados Unidos e França, distribuído pela Alpha Filmes, estreia, oficialmente, nos cinemas brasileiros, a partir de 12 de fevereiro de 2026, com classificação indicativa 14 anos e 119 minutos de duração.

Figura constante em listas escolares, George Orwell talvez não tenha hoje o mesmo prestígio automático de décadas atrás, mas “1984 voltou ao centro das conversas conforme vigilância, autoritarismo e manipulação política se tornam assuntos recorrentes. É nesse cenário que Raoul Peck, em parceria com os herdeiros do escritor, decide revisitar a vida e a obra de Orwell em “Orwell: 2+2=5”, conectando seus alertas ao presente e mostrando como foram ignorados ao longo do tempo. O resultado é um documentário ambicioso, provocador e, em vários momentos, mais denso do que precisa ser.

Com Damian Lewis dando voz a Orwell, Peck constrói uma trajetória não linear que vai da infância do autor e de sua formação política — marcada pelo contato direto com o colonialismo britânico — até a escrita de seu último livro, já isolado em uma ilha e debilitado pela tuberculose. O diretor percorre temas centrais da obra orwelliana: os danos do imperialismo, o uso estratégico da mentira para corroer instituições democráticas, a fabricação de inimigos e a manipulação da linguagem. Para cada ponto, Peck busca paralelos atuais, desde justificativas oficiais para limpeza étnica até o uso de inteligência artificial como ferramenta de distorção pública.

A narrativa é construída a partir de livros, ensaios, cartas e diários de Orwell, intercalados com imagens de arquivo, reportagens e trechos de adaptações de suas obras. A intenção é clara: mostrar que os avisos deixados pelo escritor não perderam validade. O problema é que a estrutura do filme nem sempre acompanha essa clareza. Há momentos em que o documentário parece montado às pressas, com ideias repetidas e outras jogadas sem muito cuidado, criando uma sensação de dispersão. Em vez de aprofundar cada ponto, Peck às vezes retorna a eles como um professor que não consegue avançar porque ainda não decidiu como organizar a aula.

Algumas escolhas estéticas também atrapalham. O uso insistente de respiração ofegante para ilustrar o avanço da tuberculose de Orwell, somado aos closes de bactérias no início, acaba soando mais teatral do que necessário. O recurso de imagens e músicas geradas por IA, inicialmente apresentado como demonstração de como a tecnologia pode ser usada para manipular o público, volta a aparecer sem muita justificativa, criando momentos que datam o filme e desviam a atenção do argumento principal.

Ainda assim, Peck consegue recolocar Orwell no centro do debate como alguém que enxergou, muito antes de muitos, os riscos do nacionalismo agressivo, da propaganda estatal e da erosão da democracia. O documentário funciona como um antídoto contra leituras distorcidas de sua obra, recuperando o Orwell que denunciou abusos do Estado, criticou o colonialismo que testemunhou na Índia e na Birmânia e alertou sobre o que o fascismo poderia se tornar.

O título 2+2=5 remete ao mecanismo de controle mental descrito em “1984: a exigência de aceitar o absurdo como verdade, desde que imposto pela autoridade. Peck reforça essa ideia com uma montagem de imagens que inclui ataques contra ucranianos, palestinos e rohingyas, violência contra refugiados, repressão a manifestantes e o crescimento da extrema direita, além de trechos de adaptações de “1984” e outras obras. A mensagem é direta: parte do futuro sombrio imaginado por Orwell já se concretizou.

No fim, Peck sabe exatamente o que quer dizer, mesmo que o filme nem sempre consiga traduzir essa intenção com a precisão desejada. Ainda assim, “Orwell: 2+2=5” funciona como um lembrete incômodo — e necessário — de que ignorar os alertas de Orwell tem um preço, e que talvez estejamos pagando parte dele agora.

Compartilhe

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *