
O.T.H.E.R – Presença Maligna (Other, 2025) parte de uma ideia muito boa: uma mulher isolada na casa da infância, cercada por câmeras, assombrada por memórias e por algo que pode ser sobrenatural, físico ou puramente mental.
O filme tem, no seu núcleo, um material perfeito para um terror psicológico sobre trauma, maternidade e controle, mas não confia o bastante nisso e acaba diluindo o impacto ao insistir em um monstro “de criatura” mais convencional.
A personagem Alice, vivida por Olga Kurylenko, é o eixo de tudo. Ex-modelo, marcada por uma infância traumática e por uma mãe abusiva, ela volta à casa onde cresceu não só para lidar com a herança, mas com o passado. O ponto mais interessante, é a recusa dela em ter filhos: algo que começa como um traço de independência e se revela como medo de repetir o ciclo de violência. Aí existe um filme muito mais incômodo e interessante, sobre como o trauma molda o desejo (ou a recusa) de maternar, sobre culpa herdada e sobre a impossibilidade de “começar do zero” quando o passado está impregnado em cada parede.
Só que, em paralelo, o filme insiste em um monstro que ataca rostos, o que dialoga de forma óbvia com a história de uma ex-modelo e a obsessão com aparência. É uma metáfora quase pronta: a criatura destrói aquilo que o mundo mais valoriza nela. O problema é que, ao materializar demais esse “monstro”, o filme perde a ambiguidade. Em vez de deixar o espectador em dúvida se aquilo é uma projeção da mente de Alice, uma manifestação do trauma ou algo externo, ele opta por um caminho mais literal. O resultado é um híbrido: quando está no registro psicológico, funciona melhor; quando abraça o formato de “filme de criatura”, perde densidade e cai em soluções mais previsíveis, com jump scaries e momentos de “pegadinha”.
Há, porém, escolhas formais interessantes. O diretor David Moreau trabalha com a ideia de que o rosto de Kurylenko é praticamente o único que vemos com clareza, enquanto outros personagens surgem mascarados ou distorcidos. Isso reforça a sensação de que o mundo de Alice é filtrado, fragmentado, e que ela é a única figura “inteira” naquele universo. Esse recurso é tão discreto que talvez passe despercebido por parte do público, o que é curioso: é uma decisão de direção mais sofisticada do que o próprio filme parece admitir, já que o elemento monstruoso acaba chamando mais atenção do que esse jogo de percepção.
Outro ponto relevante é a questão do ritmo. A obra talvez funcionasse melhor como curta-metragem. Isso diz muito sobre a estrutura: a ideia central é boa, o arco psicológico de Alice tem potencial, mas o longa estica esse material além do que ele suporta. Em vez de aprofundar conflitos internos, o filme preenche o tempo com aparições da criatura e com um personagem secundário que existe basicamente para despejar informações, o que denuncia certa preguiça de construção. É como se o filme tivesse medo de ficar “só” com a protagonista e seu conflito interno, e precisasse constantemente lembrar o público de que há um monstro em cena.
Importante reconhecer que Kurylenko sustenta o filme. Ela que é uma atriz conhecida por papéis de ação, aqui assume algo mais contido, mais centrado em reação, memória, medo e recusa. O fato de a câmera se fixar tanto nela reforça essa aposta: é, em grande parte, um estudo de personagem, mesmo quando o próprio filme parece não ter plena consciência disso. O problema é que, quando o horror mais físico entra em jogo, essa construção se enfraquece, porque o foco se desloca do que acontece dentro dela para o que acontece ao redor dela.
No fim, “O.T.H.E.R – Presença Maligna” parece um exemplo típico de obra que tem um bom ponto de partida, uma protagonista forte e um diretor com ideias visuais interessantes, mas que não confia o suficiente na própria base. O resultado é um filme que vale pela atuação de Kurylenko, por algumas escolhas formais discretas e pelo subtexto sobre maternidade e trauma, mas que se enfraquece quando tenta agradar quem espera um terror mais “de criatura”. É menos um fracasso total e mais um caso de oportunidade parcialmente desperdiçada.
















