
O Senhor dos Mortos (The Shrouds AKA Les Linceuls, 2024), é um longa-metragem de terror corporal, coproduzido por Canadá e França, dirigido por David Cronenberg e estrelado por um elenco estelar que inclui Diane Kruger, Vincent Cassel, Guy Pearce e Sandrine Holt.
Dando continuidade à tradição de misturar erotismo com coisas que fariam qualquer pessoa normal chamar a polícia, “O Senhor dos Mortos” tenta reinventar a forma como encaramos nossos mortos — porque, aparentemente, velório, luto e terapia não eram suficientes. A premissa é simples e absolutamente perturbadora: Karsh (Vincent Cassel), um empresário de Toronto com mais dinheiro do que bom senso, cria um sudário funerário high-tech que permite acompanhar, em tempo real, a decomposição do corpo do seu ente querido. Tudo isso direto no seu smartphone, como se fosse um stories do além. A invenção, chamada de “GraveTech”, vira um sucesso mundial, porque sempre existe alguém disposto a pagar caro para transformar o luto em voyeurismo necrofílico premium.
Karsh, claro, está obcecado pela esposa morta, Becca (Diane Kruger), cujo corpo ele observa como quem acompanha uma série da Netflix. Seu dentista chega a avisar: “a dor está corroendo seus dentes”, mas, honestamente, o que está corroendo é a sanidade dele. Cronenberg, como sempre, não está nem aí se você acha isso nojento, doentio ou digno de internação. Para ele, isso é espiritualidade. Para o resto do mundo, é motivo para bloquear o número do sujeito.
O filme normaliza essa obsessão com uma naturalidade tão desconcertante que você começa a achar que almoçar num restaurante com vista para um cemitério high-tech é algo perfeitamente aceitável. Terry, cunhada de Karsh (também interpretada por Kruger, porque por que não?), está mais preocupada com teorias da conspiração do que com o fato de o cunhado estar emocionalmente casado com um cadáver. Prioridades.
Karsh declara, com lágrimas nos olhos, que “vivia no corpo de Becca”. O que é poético, sim, mas também um pouco assustador. E, claro, completamente típico de um protagonista cronenberguiano que confunde amor com fusão corporal e luto com fetiche.
O problema é que, ao contrário de “A Mosca” (1986), onde o horror físico do protagonista nos envolve emocionalmente, aqui somos convidados a sentir pena de um homem que lamenta o corpo da esposa — mas nunca a experiência dela. Becca é tratada como um objeto estético, uma fantasia erótica mutilada, uma tela para projeções masculinas. Sua subjetividade? Enterrada junto com ela.
E quando o filme poderia mergulhar fundo na obsessão patológica de Karsh, ele decide se perder em reviravoltas tão absurdas que fariam novela mexicana corar. Pequenos nódulos aparecem no esqueleto de Becca. Seria contaminação? Hackers? Russos? Chineses? Alienígenas? O filme não sabe, mas tenta fingir que sabe. O cemitério é vandalizado, a rede digital cai, e Karsh se junta a Maury (Guy Pearce), um gênio da tecnologia que parece ter sido criado a partir de restos de personagens rejeitados da série “Mr. Robot”.
A partir daí, “O Senhor dos Mortos” vira um thriller policial improvisado, sem motivo convincente para o espectador se importar com o destino do cadáver já irreconhecível de Becca. Cronenberg, porém, insiste em nos mostrar flashbacks eróticos do casal, onde Becca aparece sempre nua, sedutora e completamente indiferente ao fato de estar sendo mutilada pelo câncer. Ela chega a dizer: “ainda podemos fazer sexo”, mesmo recém-amputada.
A única coisa que aprendemos sobre Becca é que um seio era maior que o outro e que ela teve um caso com um mentor, o que desperta em Karsh um ciúme tão previsível quanto cansativo. Sua dor, seu trauma, sua experiência? Irrelevantes. O filme só se importa com o impacto disso no ego do marido.
Quando Karsh inicia um caso com Soo-Min (Sandrine Hohlt), esposa cega de um investidor da GraveTech, o filme abraça de vez sua misoginia ornamental. Soo-Min não pode vê-lo, Becca não pode responder, e Karsh continua sendo o centro do universo emocional de todos.
Cronenberg tenta transformar tudo isso numa reflexão sobre luto, corpo e espiritualidade, mas o resultado é mais superficial do que profundo. É como se ele tivesse colocado suas ideias num liquidificador e esquecido de ligar a tampa: tudo espirra, nada se mistura.
Para os fãs do diretor, há material para pensar — sobre morte, obsessão, voyeurismo e a tendência humana de transformar sofrimento em espetáculo. Mas, no fim, “O Senhor dos Mortos” é um lembrete de que até Cronenberg pode errar a mão e entregar um filme que parece mais preocupado em chocar do que em dizer algo realmente devastador.
O horror corporal está lá. A bizarrice está lá. A provocação está lá. A profundidade emocional? Essa ficou enterrada junto com Becca.
















